quarta-feira, agosto 09, 2006

O princípio do prazer (resenha)

Despedida em Las Vegas desperta a vontade de morrer à revelia de conceitos morais e religiosos


Aos olhos cristãos, Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, EUA, 1995) não soa bem. É um filme que choca alguns conceitos, sobretudo o que fere o pudor das pessoas: o sexo e as drogas. Essa será a saída do roteirista decadente Ben (Nicolas Cage) e da prostituta Sera (Elizabeth Shue). Juntos, o alcoólatra e a meretriz viverão a trajetória do amor sem limite.
Lembra-me muito a prática da eutanásia (em outras palavras: morte sem dor). Talvez seja estranha essa afirmação, já que o alcoolismo, quando mata por si só, gera muitas dores, ao provocar cirrose em grande parte dos alcoólatras.
Digo eutanásia, porque (apesar de haver a justificativa de Ben, mostrando o seu problema familiar: talvez desentendimento com a esposa) Despedida em Las Vegas encerra a idéia de que podemos programar a nossa morte. E é a isso que assistimos: Ben decide morrer bebendo, bebendo, bebendo...
Na tela, o telespectador sofre catarse constantemente: a obsessiva ingestão de álcool da personagem interpretada por Nicolas Cage (cuja performance lhe rendeu oscar de melhor ator) causa repugnância à moral da grande maioria do público. Este, atônito, assiste aos mais graves atentados ao pudor bíblicos.
Sera, a prostituta dos sonhos da maioria dos homens, vive relacionamento conturbado com um cafetão, que, sem mais nem menos, é assassinado por supostos inimigos. Ela se prontifica a aceitar Ben na casa dela, contanto que ambos não se cobrem, não queiram que haja especulação sobre aquilo que praticam (mais da parte dele do que da dela).
Quem sabe seja da maneira escolhida por Ben a melhor forma de morrer... O problema é que a escolha da própria morte, dentro mesmo da lei (nem é preciso falar biblicamente disso), não é permitida. Pacientes em estado terminal precisam agonizar-se, em salas de reanimação, até o momento final de suas vidas.
Despedida em Las Vegas traz, a meu pesar, a possibilidade de escolhermos a nossa morte, sem que isso seja condenado pela Justiça, pela moral e fé cristãs ou por qualquer explicação metafísica que haja no mundo.
Assim, em grandes doses de uísque, vodka, tequila, o telespectador se vê acuado, abismado. Além disso, quando se vê a cena em que Sera é estuprada, a grande maioria do público imagina-se numa sala de cinema, em que o cardápio principal são filmes de pornografia.
Certo ou errado, o problema levantado no filme provoca discussões e, em certa medida, medo. Digo “medo”, porque não se imagina que a vida possa se resumir a sexo, drogas e, em vez de rock and roll, a muito jogo e diversão.
Despedida em Las Vegas, para mim, além da música-tema (interpretada por Sting), verdadeira obra de arte, é extremamente belo. Queria, como no filme, morrer em Las Vegas (com ou sem Sera), ouvindo Chico Buarque e Tom Jobim, ao lado de pilhas de latas de cerveja, uísque e vinho. Quem sabe, morrer lá (e da mesma forma que Ben) deva ser mais prazeroso do que morrer num país cujos princípios éticos foram jogados na lata de lixo.

professorcleiton@yahoo.com.br

Um comentário:

Camila Mitye disse...

Ai!
Até hoje vc é encucado com esse filme? Tsc! Quero ver fazer uma sobre De volta para o futuro! Aquilo é que é filme! ^^
Cleitongo!
Que bom que agora vc tem blog, dá pra ficar aqui curtindo com as coisinhas de doido que vc escreve! hehehehe
Eu tb tenho um blog, mas desde o meu antigo que morreu não consigo levar nenhum outro pra frente. Em breve vou começar um com meu irmão, esse sim vai ser bão toda vida!

Abraços!