terça-feira, junho 07, 2011

Gramática no Popular: dois pesos, duas medidas!

Diante da adoção do livro de Língua Portuguesa Por uma vida melhor, aprovado e recomendado pelo MEC, em cujas páginas se encontra a defesa do uso oral da língua, no qual sentenças como “nois compra o livro” são consideradas “legítimas”, em vez de serem consideradas “erros”, dezenas de pessoas se arvoraram contra a decisão do órgão federal e se posicionaram, principalmente na imprensa escrita, de forma contundente, como se vê no artigo Deformação do idioma? (edição de 07/06/2011), de Armando Acioli, ferrenho e habilidoso articulista d'O Popular.
Em bom e alto som, Acioli discorda veementemente do MEC, em especial do seu representante executivo, o ministro Fernando Haddad, quanto à escolha do material didático, já que, segundo o articulista, o vernáculo sofre um duro golpe no livro, sobretudo com relação ao que será apreendido pelos alunos em sala de aula.
É bom que se diga que o ensino de língua materna é objeto de estudo há muitos anos nas faculdades de Letras do País (da década de 1970 para cá, para ser mais exato). Verdade seja dita que esses estudos, nem sempre, chegam, com precisão ou como gostariam os estudiosos, às salas de aula. Muitos professores de Português, formados até mesmo em instituições de renomado saber científico, como USP e Unicamp, têm seriíssimas deficiências de conteúdo, o que atesta o grande número de alunos dos ensinos fundamental e médio (sobremaneira, do ensino público) de péssimo rendimento educacional, quando se trata de produção de texto escrito.
Por incrível que pareça, o curioso dessa discussão toda é que, na mesma edição em que Armando Acioli dispara contra o ministro da Educação, a despeito das lições controversas do famigerado Por uma vida melhor, a jornalista Carla de Oliveira, na matéria Presos fogem de delegacia lotada, comete, segundo a visão prescritiva de Acioli, uma sucessão de “erros” de Português. Vamos aos fatos:

a) “Com quatro celas e capacidade para 12 presos, haviam (sic) 52 pessoas detidas no local...”. Veja que o verbo “haver”, nesse caso”, significa “existir”. Portanto, é invariável. O correto é “havia 52 presos”.

b) “Devido a (sic) superlotação...”. A regência de “devido” exige o acento grave (marcador da crase) no “a”. O correto é “Devido à superlotação...”.

c) “...onde um portão dá acesso a (sic) área de banho de sol...”. Novamente, outro “erro” de regência. O correto é “... dá acesso à área...”.

d) “No momento da fuga, haviam (sic) três policiais civis”. Como dito, o verbo “haver”, “nesse caso”, é impessoal, não concorda com nenhum sujeito. Portanto, o correto é “...havia três policiais civis”.

Pensei que poderia ser lapso da autora na hora de digitar. Mas, não! Como houve recorrência de “erros”, trata-se de desconhecimento da regra de concordância verbal e de regência. E olhe que essa quantidade excessiva de “erros” (para o desespero ufanista de Armando Acioli) foi encontrada apenas nos dois parágrafos iniciais da matéria.
Fica claro, como se vê, que a noção de boa escrita atrelada ao domínio de regras da gramática normativa não é tão simples como parece acreditar Armando Acioli. A jornalista Carla de Oliveira tem formação superior, pertence a um número reduzido de pessoas que vivem exclusivamente da linguagem escrita (ao que parece, a moça é jornalista de formação). Nem por isso, ela deixou de “infringir” a gramática normativa e, na visão de Acioli, “deformar o idioma (...), violentar o vernáculo e afrontar o civismo nacional”. Devagar com o andor, jornalista!
Particularmente, tenho gigantescas ressalvas em relação a posições extremas de alguns linguistas, como Marcos Bagno da UnB, mas não deixo de as ter, com igual valor, em relação a pessoas que pensam que o ensino de Língua Portuguesa deva se restringir a um punhado de regrinhas de concordância, regência, virgulação etc.
O nobilíssimo jornalista Armando Acioli deveria, sem ressentimentos, exigir d'O Popular contratação imediata de revisor (ou revisores), para que os tão temidos “erros” de Português, comuns nas edições diárias, não entrem em conflito com o que foi defendido e combatido no já mencionado artigo Deformação do idioma?.
Afinal de contas, o revisor cuida da parte fundamental do texto escrito: a adequação, no caso do jornal impresso, ao padrão formal culto da língua e/ou à padronização de estilo, tão cara e necessária aos veículos de comunicação de notória contribuição à cultura letrada do País. Ou o cuidado textual de uma edição jornalística não passa pelas mãos, não menos redentoras, do revisor, Acioli?! Com a palavra, os editores d'O Popular.

PS.: Por gentileza, caríssimo editor, publique este texto como artigo, e não como carta do leitor. Ah! Deixe a escrita “seriíssima”, com dois “is”, também. Grato.

segunda-feira, junho 06, 2011

Por um mundo melhor (ou pior, depende do caso!)

Acordei meio azedo. E decidi criar a minha própria conspiração. Desta vez, venho a público dizer que os preconceitos tomaram de assalto as entranhas do MEC. Depois do "preconceito linguístico", aguardem os próximos preconceitos. Vamos a eles:

a) Preconceito higiênico: dizer à criança que lavar as mãos, antes das refeições, é falta de educação e desrespeito à saúde atenta contra os milhões de miseráveis, vítimas que são da falta de comida. Até hoje a fome deles é zeríssima!

b) preconceito biológico: torna-se inadmissível discutir sexo feminino e sexo masculino. A partir de agora, temos de usar somente o homossexo. Isso evita que garotos e garotas gays sintam-se acuados em seus doces lares.

c) Preconceito matemático: quem não sabe somar precisa aprender que isso não faz falta no dia a dia. Afinal de contas, quando não se tem dinheiro no bolso, dois mais dois podem ser cinco!

d) Preconceito geográfico: não mais existe "favela". Existe, sim, "comunidade". Ou seja: todos são comuns perante o espaço. Trocando em miúdos: pau é pau, pedra é pedra, traficante é traficante.

e) Preconceito físico: a queda de energia não pode ser dita para quem não deu conta de pagar a conta no final do mês. Houve, quando muito, ausência de energia por culpa da natureza.

Enfim, cansei de tanto preconceito. Aliás, por que, até agora, evitei falar de política?! Ah! Já sei: preconceito contra aqueles que se recusam a entender a matemática hedionda do Palocci! Quero ser rico como ele! Em menos tempo, de preferência. Fui.