Para o meu primo morto ontem em Brasília
Ontem, foi confirmada a morte do meu primo, o Igor. Em Brasília. Os órgãos pararam. O cérebro resistiu, o máximo que pôde, durante uns quatro dias. Houve, como se conhece no meio médico, morte cerebral antes de tudo. O Igor era escoteiro. Era mais parecido com o Tio Paulo. Era mais da família nossa (física e espiritualmente falando). Parecia, em pele e osso, com o Tio Paulo.
O irmão dele, o Henrique, é mais da família da mãe. É mais candango do que o Igor. Por isso mesmo, o Igor carregava a malícia da família Pereira. Era muito alegre. Muito divertido. Gostava de fazer sacanagens com os outros. Principalmente, com o Henrique. Sacanagens de boa índole. Coisas da família Pereira. Eu poderia procurar razões para a morte repentina de um menino tão moço, tão jovem (tinha apenas 15 anos). Mas é inevitável que eu faça algumas perguntas a Deus:
1 - Por que, Senhor Maior, a vida parece ser mais curta para algumas pessoas?!
2 - O Igor, por ser muito menino ainda, estaria fazendo falta no Céu?!
3 - É possível ser escoteiro ao lado dos Anjos?!
4 - O Senhor poderia, na próxima vez em que levar alguém que amo, avisar-me com, pelo menos, 50 anos de antecedência?!
5 - Por último, o Senhor tem noção do quanto ficamos órfãos?!
Pois bem: mesmo que insista em perguntas vãs ao Criador, a resposta não está em mim, tampouco nos acontecimentos. Está no risco do bordado. Na rede de retalhos. No andar da carroagem. Enfim: no inexplicável. Deus, no fundo, antecipa algo que já é do conhecimento d'Ele. Não do nosso. Caso contrário, estaríamos com o Igor até agora.
Eu pensei que o veria por muitos e muitos anos. Em dezembro passado, na festa de Natal, em minha casa, vi o Igor e suas travessuras. Sempre, com o sorriso no rosto. Eu disse SEMPRE. Quando chorava, era para sacanear alguém. Principalmente, o Henrique. A Rosa, mãe dele, já conhecia o filho mala que tinha, não caía nos golpes dele. Sabia, timtim por timtim, os passos dos golpes do Igor.
Certa vez, a Rosa me disse que o Igor fazia escândalos com pequenas atrapalhadas, como se estivesse em perigo de vida. Qualquer coisinha que ocorresse com ele (de um tropeção a uma mordida na língua) era motivo para ir ao hospital. Infelizmente, nesta semana, ele não saiu, espiritualmente, do hospital. Apenas o corpo foi conduzido ao funesto caminho do cemitério. É muito triste tudo isso...
Aos pais, a dor é indiscutivelmente inapagável. Eu disse a DOR. O AMOR, pelo contrário, é eterno. Como eterna é a nossa admiração pelo Igor. Repito: pelas sacangens do Igor. Pelas imitações que eu e ele fazíamos do Tio Paulo (à ausência deste). Da primeira vez em que vi As Branquelas, o Igor, o Henrique e eu morríamos de rir daquela comédia pastelão. Rimos, até morrer, das cenas de O Justiceiro, em que o protagonista enfia uma faca na bunda de um bandido. Repetíamos a cena (o Igor, o Henrique e eu) à exaustão. Recordações indeléveis...
Tio Paulo, Rosa e familiares de Brasília, sei que o Igor fará mais falta a vocês do que aos Pereira. Porque ele era, fisicamente falando, mais do DF do que de Goiânia. Mas eu digo com toda a certeza do mundo: ele foi muito meu também. Eu fui de Brasília por alguns anos. Ficava na casa do Tio Paulo, no cômodo do fundo. Fazíamos algazarra todos os dias. A propósito, comprei um violão e presenteei o Igor e o Henrique. Da última vez em que estive em Ceilândia, o Igor já arranhava alguns acordes. Sei que ele vai continuar tocando as melodias do amor ao lado de Deus.
Igor, estamos órfãos. Estamos muito tristes. Estamos sem rumo. Por enquanto, não temos nada a dizer sobre a sua ida repentina. Estamos muito perplexos. Estamos indignados com a vida. Mas nunca estaremos tristes de verdade. Porque a sua alegria foi a mais sincera do mundo. Deus há de recebê-lo muito feliz. Deus ficou alegre com a sua ida, apesar de ter deixado tristes muitos de nós.
Em nome da família Pereira, descanse o sono verdadeiro das crianças. Aí no Céu, as crianças continuam crianças. Você sempre será o escoteiro preferido do Tio Paulo, da Rosa, do Henrique. E, se não for pretensão da minha parte, será o meu eterno escoteiro. Muita paz em sua nova morada.
Até mais tarde, Igor!
Goiânia, 18 de outubro de 2012!
Quinta-feira!
7h45!
Muita dor.