“Por mais veterano, por mais hábil que seja um contista, se lhe faltar uma motivação entranhável, se os seus contos não nasceram de uma profunda vivência, sua obra não irá além do mero exercício estético”. (Julio Cortázar)
Aprendi, com João Cabral de Melo Neto, a retirar a gordura do texto: fazer, a todo instante, lipoaspiração nas palavras. Ou melhor: como os árcades, cortar o que for inútil. Preferir a transpiração à inspiração. Privilegiar o chão à nuvem. Enfim: ser telúrico, orgânico, cirúrgico.
Todo esse cuidado com o texto (a propósito, muito mais do que se imagina!) Vítor Hugo tem de sobra. Sua sintaxe é cortante, afiada, elegantíssima. Em suma: ingordurosa. Despe-se dos adjetivos delirantes, das nuances metafóricas. Assiste-se, antes de tudo, à sintaxe lacônica, cabralina, que se reveste de clareza, de objetividade, de concisão. Por isso, fascina.
Engana-se quem se dispuser a ler os Contos Cardiais com apenas o coração. Deve-se lê-lo, em detrimento de qualquer compreensão, com o cérebro, com a precisão cirúrgica à Ivo Pitanguy (perdoe-me a analogia médica!). Eliminam-se o adiposo, as sobras, os lipídios, os glicídios. A palavra, somente ela, é quem monitora o olhar atento do leitor.
Podem-se ver, na sintaxe narrativa dos contos, os pontos cardeais (a paranomásia do título do livro não é gratuita!). Todos os lugares por que passou o escrevinhador Vítor Hugo (em suas dores, em seus amores, em seu inferno e glória!) estão vivos, vivíssimos, na voz do narrador anônimo, que perpassa a sintaxe paratática dos enredos (muito parecidíssimo com o narrador machadiano, que escre(vivia) suas histórias com a perspicácia inerente às testemunhas oculares).
Para ser mais sincero: Vítor Hugo, meu amigo, você não tem cura. A sua escrita é logocêntrica. À Roland Barthes. Não por acaso, assim como eu, acredita, também, que a Lingüística é a ciência maior. A Semiótica, apenas filha bastarda dela. Nesse ponto, barthianamente, compartilhamos a mesma opinião (o que é coisa rara: que o diga o meu vício pirrônico, como você já disse certa vez, em carta enviada ao Laércio, na Corte!).
Essa maneira de narrar, que faz inveja ao curitibano Dalton Trevisan, desvia os olhos da história para os olhos da palavra. Vemos, em primeiríssima mão, o vocábulo; depois, o enredo. Como os formalistas russos, o discurso em vez da história. O enunciado em vez da enunciação.
Para a compreensão da narrativa de Contos Cardiais, vale mais a sintaxe do que a semântica (ou, convenientemente, vice-versa, bem ao gosto dos críticos de Noam Chomsky!). Sendo assim, a literariedade que Jakobson nos ensinou em seu famoso artigo O que é poesia? (1978): “A palavra é então experimentada como palavra e não como simples substituto do objeto nomeado, nem como explosão da emoção”.
Se não, vejamos:
a) “grudarnela na cantina...” (Gula)
b) “pichar a democradura...” (Polaca)
c) “Es-ti-lha-ça-do, o escuro silêncio...” (Eles)
Nesse caso, o significante é, em si, o próprio significado. Para ele, os nossos olhos. Para ele, o cuidado do narrador. Vemo-nos na palavra. A história, primorosa também, caminha paralelamente. Nem por isso, menos importante. Ofusca-se, porém, diante do primor sintático do enunciado.
Mas, registre-se, o NARRADOR COM (à Jean Pouillon) apresenta os pontos cardeais mediante as particularidades dialetais de cada região (escre)vivida nos Contos Cardiais. Dos Portos Velho e Alegre a Curitiba, do Rio de Janeiro a Goiânia, as marcas lingüístico-locais são evidenciadas pela artimanha do discurso narrador:
a) “Sirênica, fecunda, reveladora, a noite porto-velhense, sócios...” (Amargo feito sorvete – Porto Velho)
b) “- Guria! Eu já te disse que tu não é piá! Tu não pode fazer xixi em pé, guria!” (Vingança – Porto Alegre)
c) “Desculpem-me a presunção mas um nadinha de cabotinismo não faz mal a ninguém. Certo, Leminski?” (Polaca – Curitiba)
d) “Dioniso da Silva, aliás, o ‘Bonito’, como ele prefere e exige mesmo dos outros, andava esquisitão naquele início de primavera. Desbundado, injuriadão. Cachorro com bicheira na orelha, sacumé?” (O seqüestro – Rio de Janeiro)
e) “Seios, eu diria sutiã tamanho 46 (eu não vos disse que ela era bitelona?), de carnação rósea na cor, no perfume, no gosto, no tato. Meus travesseiros, eles. Uma redondez de formas, NooooooosSenhora!, de causar ereção mesmo a um Matusalém, melhor, a um Enoch.” (Sob(re) Ancila – Goiânia)
Assim, pelas frestas da linguagem, as variações diatópicas, diastráticas, diafásicas se encontram e se confundem. Descobrimos o lugar pela palavra. Por ela, os caminhos idiossincrásicos do nosso destino, do nosso falar brasileiramente. Eis os Contos Cardiais: de cor (ô) e de cor (ó). Dos olhos (em primeira mão) e do coração (em segunda mão).
As reses (sintaticamente) prevalecem em detrimento do predicado. As sentenças dos contos são curtíssimas. Daí, a preferência pela parataxe. Ou seja: a ausência de subordinação e de coordenação. O vocábulo, ele próprio, a frase, o sintagma nominal. Nisso, Vitor Hugo chega a ser artesão. Vasculha as vísceras da palavra. Parataticamente, um ourives. Enfim: “Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!" (bilacmente!).
Bom exemplo disso é o conto Diana-Chupeta. Quase todo qualificador. O verbo desaparece. Dá lugar à precisão cirúrgica do sintagma adjetival. Por esse motivo, ler os Contos Cardiais é muito mais que deleite. É aprendizagem e palavra, discurso e sobriedade, cérebro e concretude.
Não fiquemos apenas com esse aspecto. O conflito das narrativas percorre o caminho tênue entre o "nós" e os "outros" (o emplotment, como nos ensinou Hayden White). Permita-me o meu inofensivo bairrismo: a Ancila (quem é escravo de quem?), pela beleza, pela luxúria, tinha de ser de Goiânia. Terra das mulheres mais bonitas do mundo (não, meu coração não é menor do que o mundo, Drummond! Ele tem mania de grandeza...).
Ressalte-se, pois: a astúcia do Divino 45, a Gula de Neuza Beatriz, o sofrimento do implícito Jean Valjean em Eles (reescritura dOs Miseráveis, de Victor Hugo: ambos, românticos!). Toda essa gama de personagens, que nos remontam ao universo continental brasileiro: do Rio Madeira ao Guaíba, do largo do Humaitá ao Lyceu de Goiânia. Tudo move como se a vida estivesse ali, na fineza narrativa, no labor das palavras de cor.
Enfim: Vitor Hugo insere a lâmina sintática na contística contemporânea brasileira. Por isso, este livro demarca a vida literária deste carioca mundano, e o lança ao rol dos principais contistas que surgiram em nossas letras do final dos anos 80 para cá. Contos Cardiais o provam. Deleite-se com mais esta prova de amor à palavra, à literatura, à vida literarizada. Grande abraço, meu amigo crônico!
Ceilândia, DF, 23 de novembro de 2005!
Quarta-feira!
15h6!
professorcleiton@yahoo.com.br
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