1 - "Ganhar grátis. (Alguém ganha pagando?)"
.
Análise: fato corriqueiro na língua, a polissemia perpassa todas as classes de palavra. Não fosse assim, o verbo "dar" não teria aquela infinidade de significados registrados em dicionários, como o velho e indivisível Aurelião. "Ganhar grátis", além do valor pragmático, constitui, sintaticamente, o que se entende por lexia. Consultem o livro Morfossintaxe, de Flávia de Barros Carone, Ática, 1989.
.
2 - "Se suicidou (Alguém já suicidou outra pessoa?)"
.
Análise: já mencionaram aqui na página sobre o abono que o verbo ganhou não só em gramáticas como em dicionários... Além disso, é extremamente audível a pronúncia...
.
3 - "Habitat natural. (Todo habitat é natural; consulte um dicionário.)"
.
Análise: Se alguém tiver a crueldade de aprisionar um pássaro em gaiola, saiba que ele não estará, sem dúvida alguma, no "habitat natural". Estará, sim, no "habitat artificial".
.
4 - "Prefeitura Municipal. (No Brasil, só existe prefeitura nos municípios.Aliás,ainda bem!)"
.
Análise: esta já foi solucionada também: as universidades têm prefeituras. Portanto, "prefeitura municipal" não é, nunca foi e nem será redundância.
.
5 - "Conviver junto. (É possível conviver separadamente?)"
.
Análise: "Conviver" não tem apenas o sentido de presença física. Se assim o fosse, "conviver em sociedade" seria, no mínimo, grotesco: como seria possível reunir tantas pessoas ao mesmo tempo? "Conviver junto", aí, sim, é conviver em presença física. Convivo junto com os meus filhos, com a minha esposa, com os meus alunos na sala de aula. Infelizmente, convivo com o presidente Lula, somos do mesmo país. Felizmente, não "convivo junto". Granja do Torto, nem no sonho...
.
6 - "Sua autobiografia. (Se é autobiografia, já é sua.)"
.
Análise: Esta é mole: Vejam esta pergunta: "Esta autobiografia é sua ou de seu irmão?". Ou seja: contextualizem-na, por gentileza!
.
7 - "Sorriso nos lábios. (Já viu sorriso no umbigo?)"
.
Análise: Por acaso, Machado de Assis faz ou não faz as personagens sorrirem com os olhos? Ou será que os "Olhos de Ressaca", de Capitu, eram, na verdade, a boca? Continuemos...
.
8 - "Países do mundo. (E de onde mais podem ser os países?)"
.
Análise: Meus queridos: Há ou não diferença entre, por exemplo, "países do mundo" e " países baixos". Ou seja: o adjunto adnominal restringe o núcleo "país". Aqui, nos "país tropical", há muita e muita coisa para ser feita...
.
9 - "Criar novos empregos. (Ora, bolas, alguém consegue criar algo velho?)"
.
Análise: Novamente, o verbo "criar" é polissêmico. Significa "gerar". E não venham me dizer para substituí-lo. A expressão ganhou valor pragmático. Em Lingüística, chama-se lexia.
.
10 - "General do Exército. (Só existem generais no Exército)"
.
Análise: Meus caros: existem "General-de-Divisão Combatente", "General-de-Brigada Intendente". Ou seja: os dois postos podem ser preenchidos por alguém que se transforme em "general do Exército". Qual o problema? Nenhum.
.
11 - "Brigadeiro da Aeronáutica. (Só existem brigadeiros na Aeronáutica.)"
.
Análise: Isolar palavras e expressões para justificar determinado argumento não é muito a minha praia. Sinceramente, se eu disser "O brigadeiro da Aeronáutica argentina", já elimino qualquer possibilidade de isolamento lingüístico para a expressão "brigadeiro da Aeronáutica". Além disse, há o Brigadeiro-do-Ar. Não deixa de ser "brigadeiro da Aeronáutica".
.
12 - "Almirante da Marinha. (Só existem almirantes na Marinha.)"
.
Análise: Vejam: existem, por exemplo, Almirante-de-Esquadra e Contra-Almirante. Ou seja: quem ocupar um desses cargos é e sempre será almirante da Marinha. Simples..
.
13 - "Exultar de alegria. (Você consegue exultar de tristeza?)"
.
Análise: É claro que é póssível: ou a Língua Portuguesa aboliu as figuras de linguagem? "Minha alegria é triste". Roberto Carlos já sabia disso antes de muita gente...
.
14 - Labaredas de fogo. (De que mais as labaredas poderiam ser? De água?!)
.
Análise: Ledo e Ivo engano. Leiam esta afirmação: "As labaredas solares são explosões incríveis que ejetam grandes quantidades de partículas e energia eletromagnética através de um largo espectro de freqüências". Labaredas podem ser explosões. Explosões, apesar do calor, nem sempre são sinônimos de "chama". Fácil, não?!
.
15 - Pequenos detalhes. (Existem grandes detalhes?)
.
Análise: Existem! Quem tiver conhecimento mínimo de roteiro audiovisual sabe que close é uma coisa; superclose, outra. Um tem pequeno detalhe; outro, detalhe maior. Simples demais...
.
16 - "Erário público. (O dicionário ensina que erário é o tesouro público, por isso, erário só basta!)"
.
Análise: Por força da expressão (o uso sistemático dela prova isso), temos mais um caso de lexia. Consultem Morfossintaxe, de Flávia de Barros Carone.
.
17 - "Despesas com gastos. (Despesas e gastos são sinônimos!)"
.
Análise: Não são! "Gasto" se tornou objeto específico: carro, alimento, viagens etc. "Despesa" pode ser cara, barata, ou mais ou menos.
.
18 - "Encarar de frente. (Você conhece alguém que encara de costas ou de lado?)"
.
Análise: "Encarar de frente" significa "não fugir da realidade", "ter coragem de falar com alguém", "encarar o problema sem ajuda de outrem". O que há de redundante nisso? Nada.
.
19 - "Monopólio exclusivo. (Ora, pílulas, se é monopólio, já é total ou exclusivo…)"
.
Análise: Mentira! A Ambev mantém monopólio exclusivo no ramo da cervejaria. A mais próxima, Schin, não dispõe dessa exclusividade. Em compensação, na última feira agropecuária de Goiânia (a melhor do Brasil; Barretos que me desculpe!), o monopólio foi exclusivo da Nova Schin.
.
20 - "Planos ou projetos para o futuro. (Você conhece alguém que faz planos para o passado? se for o Michael J. Fox no filme “De volta para o Futuro”.)"
.
Análise: Conheço um monte: técnicos de futebol, por exemplo. Ao tomarem gol, planejam estratégia para o momento. Ou seja: para o presente.
.
21 - "Viúva do falecido. (Até prova em contrário, não pode haver viúva se não houver um falecido)"
.
Análise: Se a palavra "falecido" aparece, sempre será como substitutivo. Vejam este exemplo: "Lá vem a viúva do falecido...". É o mesmo se disséssemos: "Lá vem a viúva do dito-cujo", "Lá vem a viúva do famigerado". "Falecido" substitui o nome do morto. Fácil, fácil...
.
22 - "Manter o mesmo time. (Pode-se manter outro time? Nem o Felipão consegue!)"
Análise: Santa Ignorância! Se substituo um jogador no intervalo, já não tenho o "mesmo time". Ou seja: não mantive o "mesmo time" no segundo tempo.
.
23 - Ao telefone: “fulano não se encontra neste momento” (pq ele se perdeu?)
.
Análise: Quando digo: "Meu pai se encontra ocupado lá na loja de calçados". O verbo está no presente; porém, meu pai não está de corpo presente. Quando digo: "Meu pai não se encontra neste momento", quero dizer: não se encontra neste momento aqui. A interpretação é espacial. Nada mais do que isso.
.
24 - "outra alternativa"
.
Análise: Uma atendente de agência de viagem me diz que há três alternativas de vôos para amanhã:
a) Curitiba
b) Brasília
c) São Paulo
Eu pergunto: não há outra alternativa? Se houver, entrará na opção "d". De onde tiraram a idéia de que "outra alternativa" é redundância? Se eu trocasse por "próxima alternativa", seria a mesma coisa...
segunda-feira, janeiro 29, 2007
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Sujeitos fenomenológico e sintático
Em AD, nem sempre são tênues as fronteiras entre o que é semântico e o que é gramatical. Por exemplo:
.
a) Efigênia, feche a porta!
.
b) Efigênia fecha a porta.
.
A diferença entre as duas sentenças recai sobre a marcação do vocativo (em a) e do sujeito sintático (em b). A GT não dá conta da classificação de "Efigênia" no plano semântico. O que problematiza a noção de sujeito. Ou seja: se o primeiro critério para identificá-lo é o da concordância (se mudarmos a sentença para: "Efigênia e Vívian, fechem a porta!", perceberemos isso), conforme se vê nesse exemplo, como analisá-lo à luz da AD?! Bem: já entramos numa seara movediça. O sujeito discursivo não necessariamente é o sujeito sintático. Vejamos abaixo:
.
- Ontem, Carlos almoçou em casa. Depois disso, não se viu mais o paradeiro dele.
.
Claramente, o sujeito sintático é "Carlos", na primeira oração. Na segunda, é a voz discursiva do narrador. Ou seja: ele é sujeito discursivo, mesmo sem presença sintática no enunciado. À luz da AD cleitiana (é minha mesmo!), poderíamos dizer que a força ilocucionária do discurso funciona em duas instâncias:
.
a) Instância fenomenológica.
.
b) Instância sintática.
.
Qual o valor de cada uma? Bem: a primeira preenche o espaço do ente; a segunda, do léxico. Se não, veja-se:
.
a) Alguém bateu à porta (o fato foi consumado: houve instâncias fenomenológica e sintática).
.
b) Ninguém bateu à porta (o fato não foi consumado; por isso, só houve preenchimento da instância sintática, ou seja, a lexical: "ninguém").
.
A par dessas informações, em "Há pessoas", temos dois sujeitos:
.
a) O fenomenológico ("pessoas").
e
b) O morfossintático (primeira pessoa do presente do indicativo do verbo "haver").
.
Pela GT, "pessoas" é apenas objeto direto. Pela minha pesquisa, "pessoas" passa a sujeito fenomenológico, razão por que muita gente boa dizer/escrever: "Haviam pessoas". A concordância, como se vê, guarda relação com o sujeito fenomenológico. Se há pessoas, é porque elas existem fenomenologicamente. Daí, a troca predicaticativa: o verbo haver é, ele próprio, existir. Por isso, a concordância "haviam pessoas". Por hoje é só, pessoal. Fui.
professorcleiton@yahoo.com.br
Assinar:
Comentários (Atom)