quinta-feira, abril 26, 2007

Alossemia (publicação original na comunidade "Revisores")

Em Fonética, a variação de um mesmo fonema chama-se "alofone". Em Morfologia, a variação de um mesmo morfema chama-se "alomorfe". Em Semântica, eu digo isso na minha tese de doutorado, a variação de um mesmo sema chama-se "alossema".
No caso das preposições, aí é que tudo varia mesmo. Vejam estes exemplos:
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a) Estou à margem do rio.
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b) Estamos na margem do rio.
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c) Vou à busca de investimentos.
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d) Vou em busca de investimentos.
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As preposições "a" e "em" são as que mais variam na Língua Portuguesa (vide Rocha Lima, Gramática Normativa). Por isso, nada mais natural do que "a domicílio" e "em domicílio". Essas duas preposições são irmãs siamesas. Não se espantem com "a cores" e "em cores". O significado é o mesmo.
Claro que muita gente diz que o verbo "entregar" rege a preposição "em". Quem entrega, entrega "em algum lugar" (viram a vírgula entre "entrega/entrega"? Há abonos para ela; não fiquem zangados comigo!). Uma coisa que defendo na minha tese: não existe EXCLUSIVIDADE de regência. O verbo "entregar" rege qualquer TERMO que, com ele, contraia função. Se não (separado mesmo!), vejamos:
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a) Entreguei os pontos.
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b) Entreguei-me de corpo e alma a este amor.
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c) Entregar na porta.
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d) Entregaram-se com voracidade. Fizeram sexo a noite inteira.
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Então, meus caros: a "variação de um mesmo sema" não altera o produto final. Ou seja: o sentido. Bem-vinda a alossemia.
Bem: dito isso, "Composto de" e "Composto por" seguem o mesmo caminho: variação de um mesmo sema.
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Usem e abusem dos dois, sem parcimônia...
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Obs.: Se houver necessidade de discussão, considerem-me disposto a ela. Valeu! Há braços.
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professorcleiton@yahoo.com.br

segunda-feira, abril 09, 2007

10 sugestões de pauta à Revista Piauí para a seção Diário

Ilustríssimo editor da Revista Piauí:
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1 - Convoque o narcotraficante Fernandinho Beira-Mar para que ele indique quais os pontos mais viáveis de tráfico no Rio de Janeiro, explique como montar pontos estratégicos e, a depender da procura, como montar uma franquia de fast-food (maconha, cocaína, crack, merla etc.) em outros Estados.
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2 - Peça ao presidente Lula que relate, aos seus milhões de eleitores, como ganhar uma reeleição, dizimar os opositores e aparelhar o Estado com militantes de esquerda (amiguinhos de Beira-Mar, do MIR-Chileno, das Farc).
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3 - Convide o presidente da empresa de transporte rodoviário Itapemirim a descrever as razões funestas de não oferecer ajuda financeira às vítimas do ônibus incendiado, em 28 de dezembro do ano passado, no Rio de Janeiro, em cuja circunstância se encontrava a modelo Bia Furtado, que mendiga, ao lado do noivo, ajuda para tratamento de queimadura.
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4 - Peça, encarecidamente, ao PCC (Primeiro Comando da Capital) que ensine, aos não-escolados, como se transformar em criminoso do dia para a noite, incendiar ônibus, atacar policiais e amedrontar a população com ameaças iminentes de ataques terroristas.
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5 - Aceite, também com igual valor, o depoimento de chefes do tráfico carioca, de "líderes comunitários", donos de ONGs de direitos humanos de criminosos, que eles deixem, às claras, que o Comando Vermelho é o melhor caminho para a paz entre as pessoas.
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6 - Registre, com orgulho, os momentos felizes do PT paulista, quando da feitura do dossiê fajuto contra os não menos fajutos políticos do PSDB na última eleição presidencial. Deve render uma história e tanto!
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7 - Mostre ao Brasil, como fez Glória Perez na minissérie (?) Amazônia, que os esquerdistas são bonzinhos e o mal está nos não-esquerdistas. Que Chico Mendes é o Cristo Redentor da Amazônia. Que ele virá, algum dia, sobre nuvens, em busca das almas puras e castas. Sugestão para o relato: José Dirceu.
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8 - Exija, do presidente Evo Morales, um diário completo sobre o golpe que aplicou ao Brasil, com afagos do presidente Lula, confiscando bens da Petrobras, em nome da "causa socialista". Esse depoimento vai ser aguardado por milhões de brasileiros. A revista vai vender extraordinariamente demais.
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9 - Aproveite o ensejo e publique o diário de Hugo Chavéz, o maior blefador das Américas, o maior estelionatário da atualidade e o mais picareta dos esquerdistas no poder. Se bem que esquerdista picareta configura algo redundante.
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10 - Por último, faça um diário coletivo da Piauí, no qual os jornalistas responsáveis pela seção que publicou o texto da, como diria o Pablo na comunidade Revisores, devassa, estelionatária, puta, vadia chamada Maria Lopes possam opinar sobre a irresponsabilidade que lhes é peculiar. Peça aos jornalistas que justifiquem tamanho desserviço à população.
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Atenciosamente,
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Prof. Cleiton dos Santos Pereira
Goiânia, 9 de abril de 2007.

domingo, abril 08, 2007

Sobre o código de ética da Gramática e da Lingüística

Devemos encarar a gramática como um código de ética. Se violado, haverá punições. Por isso, ao lado das Ciências Sociais (descritivas), há o Direito (prescritivo). Ambos se complementam. Na língua, não é diferente. Observem:
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a) Gramática (prescritiva)
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b) Lingüística (descritiva)
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O princípio é o mesmo: o código de ética. Por favor, não confundam alhos com bugalhos. Quando digo ética, refiro-me ao princípio legal de convivência. É bom lembrar que nem tudo que é legal é legítimo.
A gramática normativa estipula valores que, nem sempre, vão ao encontro da realidade da língua. Nem por isso, devemos extingui-la, tampouco ignorá-la. Basta que se observe como nos expressamos aqui na comunidade. Qualquer vacilo gramatical transforma-se em xingamentos, discussões, apedrejamentos.
A Lingüística cumpre o papel de monitora; a gramática, de executora. Como isso funciona:
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a) A par de dados lingüísticos, a Lingüística descreve os usos e evidencia por que motivo determinadas expressões tomam rumos diferentes dos rumos canônicos. Por isso, monitora o uso mediante análise científica.
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b) A gramática executa, a seu modo (ainda que lentamente),as descobertas da Lingüística. O maior exemplo é a gramática do Bechara, de orientação mais descritiva do que prescritiva.
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Claro que não sou louco para dizer que essa harmonia seja evidente. Há muita controvérsia. Muita briga. Mas o que permite haver incoerência na descrição da língua é o embate entre Gramática e Lingüística (do ponto de vista da observação). Embate, diga-se, a propósito, sempre bem-vindo. É por aí. Bração pr´ocês.
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professorcleiton@yahoo.com.br