domingo, agosto 27, 2006

Domingo: um dia bom para a languidez

Domingo é bom. Todo mundo sabe. Alguns reclamam porque ele antecede a segunda-feira. Quer dizer: se não houvesse a segunda-feira, reclamariam da terça-feira, e assim sucessivamente.
Gosto do domingo. Há muito o discuto em minhas crônicas. Fiz vários textos sobre ele, cuja essência lembrava a canção do U2 Sunday Bloody Sunday. Muitos morreram no domingo: Princesa Daiana, Mamonas Assassinas, por exemplo. Hoje, vou-lhes mostrar um poema sensualíssimo de Olavo Bilac, o mesmo que se estuda em faculdades de Letras como o poeta objetivo, ourives, seco. Tirem a conclusão vocês próprios se ele é ou não é lírico. Às favas com as faculdades de Letras. Eis Satânia:





"Nua, de pé, solto o cabelo às costas,
Sorri. Na alcova perfumada e quente,
Pela janela, como um rio enorme
De áureas ondas tranqüilas e impalpáveis,
Profusamente a luz do meio-dia
Entra e se espalha palpitante e viva.
Entra, parte-se em feixes rutilantes,
Aviva as cores das tapeçarias,
Doura os espelhos e os cristais inflama.
Depois, tremendo, como a arfar, desliza
Pelo chão, desenrola-se e, mais leve,
Como uma vaga preciosa e lenta,
Vem lhe beijar a pequenina ponta
Do pequenino pé macio e branco.

Sobe... cinge-lhe a perna longamente;
Sobe...- e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril!- prossegue,
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca,
E antes de se ir perder na escura noite,
Na densa noite dos cabelos negros,
Pára confusa, a palpitar, diante
Da luz mais bela dos seus grandes olhos.

E aos mornos beijos, às carícias ternas,
Da luz, cerrando levemente os cílios,
Satânia os lábios úmidos encurva,
E da boca na púrpura sangrenta
Abre um curto sorriso de volúpia..."

quarta-feira, agosto 16, 2006

A era da telecracia global

Em 41 anos de existência, atribuíram-se à TV Globo várias alcunhas, desde a de destruidora dos lares brasileiros à de porta-voz oficial do governo; esta, pelo visto, é a mais coerente com toda a programação da emissora carioca



Em 26 de abril de 1965, surgiu, no Rio de Janeiro, a emissora que se tornou a mais influente fonte de formação discursiva do Brasil: a TV Globo. Naquele contexto, um ano após o golpe militar de 64, a esquerda brasileira construiu seu alicerce ideológico, delegando à Globo o atributo de mercenária, porta-foz dos militares, direitista, pelega, conservadora.
No Brasil, de fato, não há escolha: quem não for de esquerda será: direitista, pelego, conservador. Reside, aí, um fator fundamental para entendermos essa trajetória de inferno e glória por que passou a emissora de Roberto Marinho.
Em nenhum momento de sua história, a Rede Globo deixou de favorecer os governos hegemônicos que passaram por Brasília. Se for para condená-la, a esquerda deve repensar duas ou mais vezes o conceito de porta-voz oficial do governo. De todas as TVs privadas em funcionamento no Brasil, não há nenhuma que seja tão benevolente com o governo Lula como a Globo.
Todas as viagens do presidente têm cobertura exclusiva da Vênus Platinada. Todos os discursos atrapalhados (insólitos, melhor diria!) de Lula são editados como se fossem aula de cultura geral (França), diplomacia (Haiti) e redenção (África). A sensação que tenho (e isso é pavoroso!) é que Luís Inácio Lula da Silva não briga exclusivamente para que o País tenha assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Pelo contrário: tenho certeza de que ele quer suceder Kofi Annan na Presidência da Organização das Nações Unidas.
Por enquanto, esqueçamos essas bobagens! Partamos para outra forte jogada global (na visão da esquerda, é claro!): a teledramaturgia. Não tenho dúvida de que a Globo é, seguramente, uma das mais fortes redes de TV no mundo que produzem programas com qualidade inquestionável. Não é à toa que ela é considerada a quarta maior rede do planeta. Mas isso não a livra dos esquerdistas de plantão que a têm como produtora, em suas telenovelas, de cenas obscenas, de violência, de incentivo às drogas, ao homossexualismo e ao escambau!
Porém, o buraco é mais em cima. Vejamos alguns pequenos exemplos: Cassiano Gabus Mendes (já falecido) escreveu Que rei sou eu?, em 1989, e dizia a esquerda que o protagonista (Jean Pierre), vivido por Edson Celulari, nada mais era do que o Collor disfarçado. Para piorar a situação, no mesmo ano, Lauro César Muniz escreveu O salvador da pátria, cujo protagonista era vivido por Lima Duarte (o bobalhão, retardado, analfabeto, que se tornou líder e fracassou). O nome da personagem? Sassá Mutema. E tchantchantchantchan!!! Não se assustem: sim, para a esquerda, era o Lula em carne e osso. Por isso, ele perdeu a primeira eleição direta, depois dos governos militares.
A história, todo mundo sabe: Collor ganhou a eleição. Confiscou poupança. Aprontou o escarcéu com seu fiel tesoureiro PC Farias. E, enfim, dançou! Eis que surge Gilberto Braga com seus Anos rebeldes (1992). Contam que a minissérie dele foi a causadora do movimento dos caras-pintadas. Ora: a Globo não é nefasta? Como poderia, sendo porta-voz da direita, favorecer os estudantes, os trabalhadores, os desfavorecidos? Bem: aí é uma outra história...
Do impeachment para cá, a Globo investiu em outras produções, das quais se destaca Pátria Minha, de 1994 (novamente com Gilberto Braga no comando). Para espanto geral da nação petista, houve, nesse ano, a Copa do Mundo nos EUA. Na visão esquerdista, a intenção da novela era exaltar o ufanismo brasileiro, revestido com a conquista do tetra. E o pior! Em 1º de julho daquele tenebroso ano de 1994, surgiu o Real. Seu criador foi alçado ao posto-mor da nação. E Luís Inácio Lula da Silva amargou, meses depois, mais uma derrota presidencial.
Pelo que vimos até agora, nesta breve análise dos 41 anos da Globo, uma coisa fica clara: ela não abriu mão de seus princípios éticos, ao apoiar os presidentes do Brasil. Encurtando a conversa: em oito anos de governo, Fernando Henrique passou por agruras, diabruras e outras mulas, por ser o maior representante neoliberal das Américas. Mais uma ilusão ótica da esquerda.
Posto isso, daqui em diante, vou mostrar a benevolência global para com o PT. Afora a fictícia Alca (que só existiu nos discursos de professores, alunos, sindicalistas e jornalistas), todos os ventos sopraram para que Lula assumisse seu lugar no Palácio do Planalto em 2002. Aguinaldo Silva (esquerdista oculto) escreveu, nesse ano, Porto dos milagres. O protagonista Guma (Marcos Palmeira) tinha tudo para ser presidente do Brasil: simples, honesto, de origem pobre, batalhador e, o melhor de tudo, LÍDER.
Quem acompanhou o último capítulo da novela percebeu que Guma assumiu a prefeitura da cidade, com o discurso segundo o qual com sangue, suor e lágrima atinge-se o objetivo sem parcimônia. A esquerda conseguiu ver aí o nascimento de um líder que de Guma passou a Lula. (Permitam-me uma pequena digressão: a propósito, nas eleições de 2002, quando Marconi Perillo se candidatou à reeleição, houve um movimento liderado pelo PC do B (o partido que consegue ser governo e oposição simultaneamente!), com o simpático nome de Luma - ou seja: Lula e Marconi -, cujo mentor foi o então secretário de Ciência e Tecnologia - Gilvane Felipe. É a vida, companheiros!).
Divagações à parte, abri o parêntese apenas para mostra que, se fundíssemos Luma com Guma, na trama de Aguinaldo Silva, teríamos o Luma (não foi o caso em Goiás). Nota-se que, depois das eleições de 2002, de que se extraem as mais exuberantes histórias surrealistas da política brasileira, a Globo se juntou a Lula e nunca mais se separou dele. Pior: calou a boca da esquerda, que sempre demonizou a emissora de Roberto Marinho, considerando-a a porta-voz oficial da direita do País.
Se observarmos o comportamento global diário, não há dúvida de que ela está com Lula e não abre. Se for possível, convence o brasileiro de que o nosso presidente é o melhor do mundo e pode solucionar todos os problemas sociais, psicológicos, psicóticos, neuróticos em mais quatro anos de mandato.
Diante dessa nossa calorosa discussão, fica a pergunta: se a Globo é tão malvada, tão ideologicamente neoliberal, cujos interesses estão fincados nas grandes corporações nacionais e internacionais, por que ela sustenta um governo caótico com as mesmas armas que sustentou a ditadura militar na década de 1960? Ou seja: armas que mostram como o governo é bom, tudo está tranqüilo, tudo vai de bom a melhor?
Não é difícil perceber que, por trás da Rede Globo, está um arsenal de investimentos à disposição de qualquer governo que seja hegemônico. Caso o PT perca a eleição, o partido que sair vitorioso será agraciado pela TV de Roberto Marinho. Afinal de contas, como quer a esquerda, a quarentona Plim Plim é a porta-voz oficial do governo. Eu diria: de qualquer governo!
Deixemos de lado, então, essa tolice, segundo a qual a Globo é a causadora de todas as desgraças humanas congregadas, como diria Augusto dos Anjos, em um de seus célebres poemas. Ela é a maior potência da comunicação brasileira. É natural, pois, que detenha o maior poder de formação discursiva num país continental como o nosso.
Mais: essa babaquice de que a Globo influencia mal as pessoas é pura balela. Os mesmos idiotas que a criticam apóiam iniciativas funestas como a distribuição de camisinha, pelo Ministério da Saúde, para crianças a partir de 12 anos, a apologia ao crime do Estatuto da Criança e do Adolescente, a proibição de pesquisas com células-tronco, a pluralidade ideológica e discursiva. Enfim: são os mesmos idiotas que acreditam que Deus é brasileiro e atribuem aos Estados Unidos a pecha de serem o cartão postal do Capeta.
Pois bem: sem mais delongas, o que falta a nós brasileiros (incluem-se aí todos os aparelhos ideológicos personificados) são iniciativas individuais que possibilitem a liberdade de escolha. Ser livre é não ser de esquerda ou de direita. É tirar conclusões de tudo o que for perverso, e fazer o possível para desvelar a perversidade de quem pratica toda e qualquer espécie de crime. Ao contrário do que pregam as Amélias da Educação (como diria José Maria e Silva), temos de parar com a idiotice educacional de formar “cidadãos críticos” (isso é eufemismo de militante esquerdista!). Temos de formar cidadãos livres. Aqueles que não sairão cuspindo marxismo ou qualquer outro ismo como forma de militar para este ou aquele partido.
Enfim: os 40 anos da Rede Globo provam que um país forte se faz com seres pensantes e independentes. Que sejam livres das Comunidades Eclesiais de Base, da teologia da libertação, dos movimentos estudantis, dos sindicatos, da cegueira evangélica, do MST, do PSOL, do PT, do PC do B, do PSDB, do PFL e de qualquer outro partido que possa existir neste mundo!
professorcleiton@yahoo.com.br

segunda-feira, agosto 14, 2006

A inversão perversa da lógica humana

Indignado seria pouco para o que sinto. Depois que a Globo divulgou as imagens de um bandido-militante, na madrugada de domingo último, à imagem e semelhança dos terroristas do Hizbollah, fiz-me perguntas diversas:
1- Seria a hora de as Forças Armadas tomarem providênica em relação às forças armadas e criminosas que se instalaram em São Paulo?
2 - Até onde vai a relação do PT com tudo isso?
3 - Pode, a Rede Globo exibir um vídeo, enaltecendo o poder de fogo de criminosos protegidos por ONGs de direitos humanos de bandidos?
4 - O jornalista brasileiro, depois do episódio Portanova, deixará de ser cretino e passará a noticiar o perigo instaurado no Estado de São Paulo, fruto de militâncias da velha esquerda em presídios, em associações de moradores de favela?
5 - A Igreja (a Católica, sobremaneira!) tomaria alguma decisão para punir padres-militantes, pastores de presídios, grupos de jovens livres, que apóiam quadrilhas como o PCC em nome da fé?
6 - O estudante brasileiro é tão burro, que não percebe a omissão da UNE, justamente no momento em que ela (pelas balelas que sempre pregou!) deveria ir às ruas e pedir providências ao presidente da República? E a CUT: cadê os direitos do "trabaiadô"?
7 - Pessoas honestas, intelectuais compromissados com a cidadania não estariam se omitindo (como eu, neste momento!), limitando-se a meros textos revoltosos, publicados sobretudo em páginas da internet?

8 - Onde está o Ministério Público, que não hesita um segundo em pedir punição a policiais que, em confronto, mandam bandidos para o Inferno?
9 - O PFL de Cláudio Lembo é tão retardado, a ponto de não responder à altura aos ataques praticados em São Paulo, por bandidos que têm residência fixa? Ou o PFL ignora que as ordens partem dos próprios presídios?
10 - Enfim, já que está declarada guerra civil no País, não seria a hora de criarmos milícias também, para combater criminosos, uma vez que a polícia está com as mãos atadas, vítima de promotores, de ONGs de direitos humanos de bandidos, dos padrecos da Teologia da Libertação, das pseudoteorias de Marilena Chauí, da promiscuidade da imprensa brasileira ante o aparelhamento petista em todos os níveis sociais?
Bem, meus amigos, faria mil perguntas, se quisesse. Mas lamento a minha fragilidade diante do banditismo oficial criado pela velha esquerda, e espalhado por todas as instituições públicas brasileiras.
Para que entendam a minha indignação, leiam o texto dos membros do PCC, exibido pela Globo na madrugada de sábado, publicado por Veja.
Não poderia terminar este texto sem a última pergunta:
11 - Desde quando bandido coitadinho, vítima do sistema, da exclusão social, escreveria tão bem ao gosto de advogados, de juízes, de promotores, como vemos no texto abaixo? Tirem suas conclusões, meus amigos!

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A íntegra do texto lido e atribuído ao PCC 13 de Agosto de 2006


À 0h28 deste domingo, o repórter Cesar Tralli entrou no ar em rede nacional em um plantão especial do Jornal da Globo para informar sobre a condição imposta pelo Primeiro Comando da Capital para não matar o jornalista Guilherme Portanova, seqüestrado na manhã de sábado: a veiculação na íntegra de um DVD produzido pela facção com reivindicações a respeito do sistema carcerário. No DVD, aparece um homem jovem, com uma touca ninja e um blusão azul. A seguir a íntegra do plantão da emissora:Cesar Tralli: “O auxiliar técnico da TV Globo Alexandre Calado, seqüestrado hoje (ontem) de manhã junto com o repórter Guilherme Portanova, acaba de ser libertado. Os seqüestradores o deixaram perto da emissora e deram a ele um DVD, dizendo que a condição para libertar com vida o repórter que está em poder deles é a divulgação na íntegra das imagens. O conteúdo é o que segue:‘Como integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC), venho pelo único meio encontrado por nós para transmitir um comunicado para a sociedade e os governantes. A introdução do Regime Disciplinar Diferenciado, pela Lei 10.792 de 2003, no interior da fase de execução penal, inverte a lógica da execução penal. E coerente com a perspectiva de eliminação e inabilitação dos setores sociais redundantes, leia-se clientela do sistema penal, a nova punição disciplinar inaugura novos métodos de custódia e controle da massa carcerária, conferindo à pena de prisão um nítido caráter do castigo cruel.O Regime Disciplinar Diferenciado agride o primado da ressocialização do sentenciado, vigente na consciência mundial, desde o ilusionismo (sic) e pedra angular do sistema penitenciário nacional, inspirado na escola da nova defesa social. A Lep (Lei de Execução Penal) já em seu primeiro artigo, traça como objetivo o cumprimento da pena e a reintegração social do condenado, a qual é indissociável da efetivação da sanção penal. Portanto, qualquer modalidade de cumprimento de pena em que não haja comitância (sic) dos dois objetivos legais, o castigo é reintegração social com observância apenas do primeiro, mostra-se ilegal e contrário à Constituição federal.Queremos um sistema carcerário com condições humanas, não um sistema falido desumano no qual sofremos inúmeras humilhações e espancamentos. Não estamos pedindo nada mais do que está dentro da lei. Se nossos governantes, juízes, desembargadores, senadores, deputados e ministros trabalham em cima da lei, que se faça justiça em cima da injustiça que é o sistema carcerário: sem assistência médica, sem assistência jurídica, sem trabalho, sem escola, enfim, sem nada.Pedimos aos representantes da lei que se faça um mutirão judicial, pois existem muitos sentenciados com situação processual favorável, dentro do princípio da dignidade humana. O sistema penal brasileiro é na verdade um verdadeiro depósito humano, onde lá se jogam os serem humanos como se fossem animais. O RDD é inconstitucional. O Estado Democrático de Direito tem a obrigação e o dever de dar o mínimo de condições de sobrevivência para os sentenciados. Queremos que a lei seja cumprida na sua totalidade. Não queremos obter nenhuma vantagem, apenas não queremos e não podemos sermos (sic) massacrados e oprimidos.Queremos que as providências sejam tomadas, pois não vamos aceitar e ficarmos de braços cruzados pelo que está acontecendo no sistema carcerário. Deixamos bem claro que nossa luta é com os governantes e policiais, e que não mexam com nossas famílias que não mexeremos com as de vocês. A luta é nós e vocês.’Tralli: Este é o vídeo enviado pelos seqüestradores. Outras informações sobre o seqüestro do jornalista Guilherme Portanova a qualquer momento.”

sexta-feira, agosto 11, 2006

Esperem um pouquinho mais...

Meus queridos e amados amigos: neste fim de semana, estarei em Bom Jesus da Lapa, BA, ministrando um curso de Semântica para a especialização em Língua Portuguesa da Salgado de Oliveira. Na segunda-feira, conto-lhes sobre a minha relação sexual com a presidenciável Heloísa Helena (que mulher gostosa!). Vai ser uma bomba! Acredito que ela passará o barbudinho... Fiquem à espreita! Há braços.

quarta-feira, agosto 09, 2006

O princípio do prazer (resenha)

Despedida em Las Vegas desperta a vontade de morrer à revelia de conceitos morais e religiosos


Aos olhos cristãos, Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, EUA, 1995) não soa bem. É um filme que choca alguns conceitos, sobretudo o que fere o pudor das pessoas: o sexo e as drogas. Essa será a saída do roteirista decadente Ben (Nicolas Cage) e da prostituta Sera (Elizabeth Shue). Juntos, o alcoólatra e a meretriz viverão a trajetória do amor sem limite.
Lembra-me muito a prática da eutanásia (em outras palavras: morte sem dor). Talvez seja estranha essa afirmação, já que o alcoolismo, quando mata por si só, gera muitas dores, ao provocar cirrose em grande parte dos alcoólatras.
Digo eutanásia, porque (apesar de haver a justificativa de Ben, mostrando o seu problema familiar: talvez desentendimento com a esposa) Despedida em Las Vegas encerra a idéia de que podemos programar a nossa morte. E é a isso que assistimos: Ben decide morrer bebendo, bebendo, bebendo...
Na tela, o telespectador sofre catarse constantemente: a obsessiva ingestão de álcool da personagem interpretada por Nicolas Cage (cuja performance lhe rendeu oscar de melhor ator) causa repugnância à moral da grande maioria do público. Este, atônito, assiste aos mais graves atentados ao pudor bíblicos.
Sera, a prostituta dos sonhos da maioria dos homens, vive relacionamento conturbado com um cafetão, que, sem mais nem menos, é assassinado por supostos inimigos. Ela se prontifica a aceitar Ben na casa dela, contanto que ambos não se cobrem, não queiram que haja especulação sobre aquilo que praticam (mais da parte dele do que da dela).
Quem sabe seja da maneira escolhida por Ben a melhor forma de morrer... O problema é que a escolha da própria morte, dentro mesmo da lei (nem é preciso falar biblicamente disso), não é permitida. Pacientes em estado terminal precisam agonizar-se, em salas de reanimação, até o momento final de suas vidas.
Despedida em Las Vegas traz, a meu pesar, a possibilidade de escolhermos a nossa morte, sem que isso seja condenado pela Justiça, pela moral e fé cristãs ou por qualquer explicação metafísica que haja no mundo.
Assim, em grandes doses de uísque, vodka, tequila, o telespectador se vê acuado, abismado. Além disso, quando se vê a cena em que Sera é estuprada, a grande maioria do público imagina-se numa sala de cinema, em que o cardápio principal são filmes de pornografia.
Certo ou errado, o problema levantado no filme provoca discussões e, em certa medida, medo. Digo “medo”, porque não se imagina que a vida possa se resumir a sexo, drogas e, em vez de rock and roll, a muito jogo e diversão.
Despedida em Las Vegas, para mim, além da música-tema (interpretada por Sting), verdadeira obra de arte, é extremamente belo. Queria, como no filme, morrer em Las Vegas (com ou sem Sera), ouvindo Chico Buarque e Tom Jobim, ao lado de pilhas de latas de cerveja, uísque e vinho. Quem sabe, morrer lá (e da mesma forma que Ben) deva ser mais prazeroso do que morrer num país cujos princípios éticos foram jogados na lata de lixo.

professorcleiton@yahoo.com.br

Da janela (roteiro literário)


CENA 1 – PAREDE DE UMA CASA ANTIGA – EXT/DIA


Música incidental: Da janela

A CAM percorre a parede de uma casa antiga. Os cartões de apresentação surgem, indicando nomes de atores, diretor etc.


Corta rápido para:



CENA 2 – JANELA DA CASA ANTIGA – EXT/DIA


Ao término dos cartões de apresentação, a CAM descobre Efigênia debruçada sobre a janela.


NARRADOR (off) – Da janela, os olhos úmidos. Triste, o viés misterioso do olhar. Efigênia chora (inserto: close nos olhos dela). Um sonho esfacela-se. O amado partiu (inserto: close nos pés de um homem em movimento). Cruel, a sina. Magoada, contempla o infinito desejo de morrer da menina do retrato.

EFIGÊNIA (Em monólogo interior) – Quem será?

NARRADOR (off) – Franze a testa, limpa as lágrimas e volta a observar a vida depois da janela.


Corta rápido para:



CENA 3 – INTERIOR DE UMA CASA – INT/DIA

CAM revela o interior da sala, descobrindo a impassibilidade da mobília (à la Augusto dos Anjos, em “Poema Negro”).


NARRADOR (off)– Dois mundos, o dela: a solidão nefasta da interioridade da casa...

Corta rápido para:

CENA 4 – PONTO DE VISTA DE ALGUÉM DA JANELA – EXT/DIA


CAM revela a exterioridade da rua, como se alguém estivesse observando, da janela, o lado de fora.

NARRADOR (off) – A sedutora imagem da exterioridade da rua.

Corta rápido para:

CENA 5 – JANELA DE CASA ANTIGA – EXT/DIA


NARRADOR (off)– Transpor a abertura na parede, ir ao encontro do Outro, tornar-se um Ser à procura de respostas: Efigênia, quando adormece, ascende a isso. Protela o ímpeto todas as vezes.

EFIGÊNIA (Em monólogo interior) – Ainda provarei que sou feliz...

NARRADOR (off) – Os olhos não fogem do horizonte longínquo da cidade. Pequena cidade (inserto: take da visão geral da cidade). Efigênia gosta de perfume. Reconhece as pessoas pelo aroma (em muitos casos, pelo odor). Dia desses, viu um homem cuja fragrância se parecia com a descoberta da felicidade (inserto: close no rosto do homem). Temeu o perfume: quiçá armadilha olfativa. O homem, ao contrário, podia não lhe dar filhos. Ela planejava uma família feliz. Tradicionalmente feliz. Instituição social, mesmo! (inserto: tomada de uma família reunida no horário ”sagrado” da refeição: o pai, à cabeceira; a mãe e a filha, do lado esquerdo; os dois filhos, do lado direito). Sua filha chamar-se-ia Beatriz (por enquanto, o pai fugiu; quem sabe voltará?). Ela gosta desse nome.

EFIGÊNIA (Em monólogo interior) - Be actress!

NARRADOR (off) – Recorda as aulas de Inglês.

NARRADOR (off) – Teatro: um dia almejou atuar nesse espaço dramático (inserto: take da entrada de um teatro). Desistiu antes da primeira peça, cujo enredo (fatidicamente assim): de família burguesa, um rapaz abre, de toda a riqueza que possuía, mão: parte em prol do amor de Carolina. Ela, antipoeticamente, morre no parto. Ele, morto existencialmente. O filho, na noumenalidade do NÃO SER (inserto: seguem-se a essa descrição a mãe, coberta por um lençol azul, em cuja região da vagina há manchas de sangue, e o pai que, desesperado, chora ininterruptamente, com a criança morta no colo). A moça da janela desistiu do papel principal, pois temia a Morte (inserto: Efigênia, no centro do palco de um teatro, rasga folhas de um texto dramático). Na ficção, há motivos para que atores vivenciem a experiência do palco no dia-a-dia (inserto: em redemoinho, surge um jornal cuja manchete principal é o relato sobre a morte da atriz Daniela Perez). Por isso, desligou-se do elenco o mais rápido possível. Ser atriz era o primeiro sonho de Efigênia. Os outros, mistério (inserto: close em um ursinho de pelúcia sobre uma cama). Quis ela que o destino a pusesse no caminho certo. Mas o amado partiu: levando, com ele, o amor dela; deixando, com ela, a ausência dele. Novamente a foto: a menina permanecia anônima àqueles olhos perscrutadores.

EFIGÊNIA (Em monólogo interior)– De quem seria filha?

NARRADOR (off) – A mancha amarela denunciava a antigüidade do retrato. Havia resquícios de palavras femininas no verso da foto(grafia). Dedicatória à mãe da menina (inserto: close no verso da foto). Efigênia olha novamente o horizonte (inserto: ponto de vista dela) e resolve tomar uma decisão: quer desbravar o enigma da rua: essa eterna morada dos loucos, dos bêbados, dos leprosos, das meretrizes, dos amantes, dos alcoólatras, das donzelas, dos fetos em latões de lixo e, principalmente, do proibido... (inserto: a cada fala descritiva do Narrador, close nas figuras referidas).

Corta rápido para:

CENA 6 – RUA EM FRENTE À JANELA – EXT/DIA


NARRADOR (off) - Salta a janela (inserto: em croma, tendo como fundo a parede da casa, sobre cuja janela Efigênia debruça, vê-se a figura dela de braços abertos, saltando para a rua): a sensação é de orgasmo múltiplo: descobrir o profícuo sabor do lado de fora da vida. Alegra-se. Ri com a foto na mão. Saltita, várias vezes, até alcançar o êxtase da liberdade. Dança feito criança no meio da calçada. Qual bailarina russa...


PONTUAÇÃO MUSICAL (inserto: close na cabina de um caminhão preto)


NARRADOR (off) – Corte: de repente, o trágico. Descuida-se. Sorriso de criança em face de mulher. Dos que trafegam, os olhos esbugalhadamente atônitos (inserto: close nos rostos de alguns figurantes: gari, executiva, pedestres, operário, negro, criança etc, boquiabertos pela cena a que assistem). O objeto aniquila a elipse do sujeito: um caminhão preto sela a existência da moça da janela. E o evento carrega, impunemente, a foto da mão de Efigênia...


A CAM fecha em Efigênia estirada no chão. Vê-se o sangue escorrer da boca e da cabeça dela. Instantes. Música: Parte de ti.

Corta rápido para:


CENA 7 – CARTÕES DE ENCERRAMENTO - TELA ESCURA

Música: Por ela

Surgem nomes de colaboradores, de figurantes, de possíveis patrocinadores, de pessoas que ajudaram na realização do vídeo etc.
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A sintaxe paratática de "Contos Cardiais" (prefácio)



“Por mais veterano, por mais hábil que seja um contista, se lhe faltar uma motivação entranhável, se os seus contos não nasceram de uma profunda vivência, sua obra não irá além do mero exercício estético”. (Julio Cortázar)


Aprendi, com João Cabral de Melo Neto, a retirar a gordura do texto: fazer, a todo instante, lipoaspiração nas palavras. Ou melhor: como os árcades, cortar o que for inútil. Preferir a transpiração à inspiração. Privilegiar o chão à nuvem. Enfim: ser telúrico, orgânico, cirúrgico.
Todo esse cuidado com o texto (a propósito, muito mais do que se imagina!) Vítor Hugo tem de sobra. Sua sintaxe é cortante, afiada, elegantíssima. Em suma: ingordurosa. Despe-se dos adjetivos delirantes, das nuances metafóricas. Assiste-se, antes de tudo, à sintaxe lacônica, cabralina, que se reveste de clareza, de objetividade, de concisão. Por isso, fascina.
Engana-se quem se dispuser a ler os Contos Cardiais com apenas o coração. Deve-se lê-lo, em detrimento de qualquer compreensão, com o cérebro, com a precisão cirúrgica à Ivo Pitanguy (perdoe-me a analogia médica!). Eliminam-se o adiposo, as sobras, os lipídios, os glicídios. A palavra, somente ela, é quem monitora o olhar atento do leitor.
Podem-se ver, na sintaxe narrativa dos contos, os pontos cardeais (a paranomásia do título do livro não é gratuita!). Todos os lugares por que passou o escrevinhador Vítor Hugo (em suas dores, em seus amores, em seu inferno e glória!) estão vivos, vivíssimos, na voz do narrador anônimo, que perpassa a sintaxe paratática dos enredos (muito parecidíssimo com o narrador machadiano, que escre(vivia) suas histórias com a perspicácia inerente às testemunhas oculares).
Para ser mais sincero: Vítor Hugo, meu amigo, você não tem cura. A sua escrita é logocêntrica. À Roland Barthes. Não por acaso, assim como eu, acredita, também, que a Lingüística é a ciência maior. A Semiótica, apenas filha bastarda dela. Nesse ponto, barthianamente, compartilhamos a mesma opinião (o que é coisa rara: que o diga o meu vício pirrônico, como você já disse certa vez, em carta enviada ao Laércio, na Corte!).
Essa maneira de narrar, que faz inveja ao curitibano Dalton Trevisan, desvia os olhos da história para os olhos da palavra. Vemos, em primeiríssima mão, o vocábulo; depois, o enredo. Como os formalistas russos, o discurso em vez da história. O enunciado em vez da enunciação.
Para a compreensão da narrativa de Contos Cardiais, vale mais a sintaxe do que a semântica (ou, convenientemente, vice-versa, bem ao gosto dos críticos de Noam Chomsky!). Sendo assim, a literariedade que Jakobson nos ensinou em seu famoso artigo O que é poesia? (1978): “A palavra é então experimentada como palavra e não como simples substituto do objeto nomeado, nem como explosão da emoção”.
Se não, vejamos:

a) “grudarnela na cantina...” (Gula)
b) “pichar a democradura...” (Polaca)
c) “Es-ti-lha-ça-do, o escuro silêncio...” (Eles)


Nesse caso, o significante é, em si, o próprio significado. Para ele, os nossos olhos. Para ele, o cuidado do narrador. Vemo-nos na palavra. A história, primorosa também, caminha paralelamente. Nem por isso, menos importante. Ofusca-se, porém, diante do primor sintático do enunciado.
Mas, registre-se, o NARRADOR COM (à Jean Pouillon) apresenta os pontos cardeais mediante as particularidades dialetais de cada região (escre)vivida nos Contos Cardiais. Dos Portos Velho e Alegre a Curitiba, do Rio de Janeiro a Goiânia, as marcas lingüístico-locais são evidenciadas pela artimanha do discurso narrador:

a) “Sirênica, fecunda, reveladora, a noite porto-velhense, sócios...” (Amargo feito sorvete – Porto Velho)

b) “- Guria! Eu já te disse que tu não é piá! Tu não pode fazer xixi em pé, guria!” (Vingança – Porto Alegre)


c) “Desculpem-me a presunção mas um nadinha de cabotinismo não faz mal a ninguém. Certo, Leminski?” (Polaca – Curitiba)

d) “Dioniso da Silva, aliás, o ‘Bonito’, como ele prefere e exige mesmo dos outros, andava esquisitão naquele início de primavera. Desbundado, injuriadão. Cachorro com bicheira na orelha, sacumé?” (O seqüestro – Rio de Janeiro)

e) “Seios, eu diria sutiã tamanho 46 (eu não vos disse que ela era bitelona?), de carnação rósea na cor, no perfume, no gosto, no tato. Meus travesseiros, eles. Uma redondez de formas, NooooooosSenhora!, de causar ereção mesmo a um Matusalém, melhor, a um Enoch.” (Sob(re) Ancila – Goiânia)

Assim, pelas frestas da linguagem, as variações diatópicas, diastráticas, diafásicas se encontram e se confundem. Descobrimos o lugar pela palavra. Por ela, os caminhos idiossincrásicos do nosso destino, do nosso falar brasileiramente. Eis os Contos Cardiais: de cor (ô) e de cor (ó). Dos olhos (em primeira mão) e do coração (em segunda mão).
As reses (sintaticamente) prevalecem em detrimento do predicado. As sentenças dos contos são curtíssimas. Daí, a preferência pela parataxe. Ou seja: a ausência de subordinação e de coordenação. O vocábulo, ele próprio, a frase, o sintagma nominal. Nisso, Vitor Hugo chega a ser artesão. Vasculha as vísceras da palavra. Parataticamente, um ourives. Enfim: “Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!" (bilacmente!).
Bom exemplo disso é o conto Diana-Chupeta. Quase todo qualificador. O verbo desaparece. Dá lugar à precisão cirúrgica do sintagma adjetival. Por esse motivo, ler os Contos Cardiais é muito mais que deleite. É aprendizagem e palavra, discurso e sobriedade, cérebro e concretude.
Não fiquemos apenas com esse aspecto. O conflito das narrativas percorre o caminho tênue entre o "nós" e os "outros" (o emplotment, como nos ensinou Hayden White). Permita-me o meu inofensivo bairrismo: a Ancila (quem é escravo de quem?), pela beleza, pela luxúria, tinha de ser de Goiânia. Terra das mulheres mais bonitas do mundo (não, meu coração não é menor do que o mundo, Drummond! Ele tem mania de grandeza...).
Ressalte-se, pois: a astúcia do Divino 45, a Gula de Neuza Beatriz, o sofrimento do implícito Jean Valjean em Eles (reescritura dOs Miseráveis, de Victor Hugo: ambos, românticos!). Toda essa gama de personagens, que nos remontam ao universo continental brasileiro: do Rio Madeira ao Guaíba, do largo do Humaitá ao Lyceu de Goiânia. Tudo move como se a vida estivesse ali, na fineza narrativa, no labor das palavras de cor.
Enfim: Vitor Hugo insere a lâmina sintática na contística contemporânea brasileira. Por isso, este livro demarca a vida literária deste carioca mundano, e o lança ao rol dos principais contistas que surgiram em nossas letras do final dos anos 80 para cá. Contos Cardiais o provam. Deleite-se com mais esta prova de amor à palavra, à literatura, à vida literarizada. Grande abraço, meu amigo crônico!

Ceilândia, DF, 23 de novembro de 2005!
Quarta-feira!
15h6!
professorcleiton@yahoo.com.br

terça-feira, agosto 08, 2006

Liberdade condicionada (CONTO)



Presídio Ilha da Boa Esperança. Um forte construído no meio do deserto. Aqui, não se vê gaivota voar. Aqui, aparecem caminhões superlotados: a mercadoria é gente viva. Outros caminhões, agora de cor preta, levam muita gente: só que, dessa vez, morta. Abílio é o encarregado pelos que batem a caçoleta: assim são anunciados os que morrem. Ele perdeu a conta de quantos já transportou. Lembra-se, de quando em vez, dos corpos mutilados em briga interna. A lei do silêncio. Abílio não reclama de nada. Não diz nada. Há muito, descobriu um amigo: Herculano. Este veio de cidade distante. Esqueceu o nome dela (Os homens me perseguem...), dizia, cauteloso. Ele acreditava ser inocente. Mas não dizia nada. Havia o Chefe. Impávido Chefe. Mantinha a metafísica da presença.
Certo dia, Herculano, no necrotério do presídio, foi ter, com palavras, ao amigo coveiro/transportador de corpos. (Cê viu? O Clóvis... morreu.) (Passava da hora!). (É ele aquele ali?). (É, sim!).Herculano regurgita uma idéia. (Vamos fazer um trato?). (Não quero confusão pra mim, hein?!). (Escuta: amanhã, às cinco horas da madrugada, escapo da cela e entro dentro do caixão: cê leva o morto junto comigo...). (Isso vai dar bode!). (Dá, não, bobo! Nós somos espertos! Cê enterra eu e ele, depois cavuca o chão, me retira lá de dentro e eu fujo... Ninguém vai saber aonde fui parar). (Sei, não!).
Os dois continuaram a discutir. Abílio, no fundo, gostava do amigo. Hesitou muito. Decidiu atender ao pedido de Herculano. O dia caminhou como de rotina. Briga só na hora da bóia. Unzinho quis garfar o bucho do novato. Guardas, o Mal na cara, impediram o motim. Levaram choque, os presos. Todos os envolvidos. A vingança ao arruaceiro, nesses casos, é coletiva. Tanto da parte dos milicos quanto da parte dos confinados. Herculano não escapou dessa (mesmo não tendo nada a ver com a confa). Levou muito choque. Não revidou. Tinha a doce esperança de fugir dali no outro dia.
Clóvis, na aterradora posição de defunto, jazia com um leve sorriso no canto da boca. Diziam que era muito malandro. Irônico, nos dizeres do Chefe (Blefava sempre, esse patife. Forjou um desaparecimento, há muito. Tomou muita porrada. Sempre leva porrada). Morreu pela boca (Dizem). Falou demais. O Chefe não permite falatório. Não se discute: executa! Não se revida: consente! (Dá a outra face para a porrada!). Muita briga, ali. Somente Abílio passava despercebido. Homem de poucas palavras. Não tinha família. Amou uma vez: Flora, mulher de verdade (Segundo ele). Depois que ela morreu, o amor dele foi junto. Desacreditou do ser humano. Tudo morre. Se arranjasse outra mulher, morreria como a primeira. A carne é podre. Resolveu ser coveiro. Assim, tanto faz como tanto fez: enterraria as pessoas sem ressentimento algum.
A noite foi chegando e desaparecendo como um relâmpago. A madrugada surgia como surge o desejo de liberdade dos sabiás, que cantavam todas as manhãs na Ilha da Boa Esperança. Um canto alegre: porem, com desfecho fúnebre. Eles, os sabiás, anunciavam, como dizia Abílio, a Morte. E dessa ninguém foge. (Nem o Capeta. Porque o Deus-Pai é poderoso. Mata toda gente que maltrata), cochichou Abílio no ouvido de Clóvis, cujo corpo, nu, repousava em uma maca. (Vam’bora, mortinho, sua hora chegou. Dessa vez, não haverá blefe!).
Abílio, sem mais nem menos, sente um estalo no coração (Premonição? Tolice de quem já está com a idade avançada - 50 anos? Coisa à-toa?). Reflete uns instantes. Ignora a dor repentina. Nisso, já eram duas e meia da madrugada. Às cinco em ponto, estava lá Herculano, pronto para embarcar na Barcarola da Liberdade. Ele sonhou voando pelo deserto numa aeronave. Um anjo lhe contou que era uma barcarola. Ele sorriu no sonho. Acordou sorrindo.
Antes de entrar, confere, no bolso da calça, a lanterna que havia ganhado de Abílio. Seria a luz no fim da morte. Ou melhor: no fim do túnel. Herculano sabia que podia contar com o amigo. Às cinco horas e meia, mais ou menos, estaria a caminho da liberdade. Indescritível o momento da partida. O nobre fujão sentia o crepitar, não de chamas, mas de fagulhas de pedras estraçalhadas pelos pneus do Caminhão da Morte. A cada trepidação, um sentimento de alívio: estava chegando a hora. O morto, ao seu lado, gélido. Cheirando a formol. Corpo nu. (Credo!!!), pensou. Independentemente do odor, o defunto foi o motivo da saída de Herculano da Ilha da Boa Esperança. Que fedesse, que putrefizesse, que soltasse pus, que derretesse ao seu lado! A liberdade ignora qualquer tipo de sacrifício!
De repente, freia-se o caminhão. Há movimentos de passos. (É Abílio!), riu-se. (Força, amigo, tô indo embora), alegrava-se. O caixão desceu muito rápido, como se despencasse num abismo. O choque com o fundo da cova fez Herculano dar um pequeno grito. Mas, e daí? Só havia o morto e o amigo Abílio presentes. Nada que o comprometesse. Detalhe: simultaneamente à ansiedade, ouvia-se o chuvisco lúgubre da terra sendo arremessada para o orifício fatídico do deserto. A tampa do caixão fez um leve movimento, devido ao peso da terra que lhe foi despejado. Herculano achou estranho esse tanto de terra. Ficaria dificultoso para Abílio retirá-la com maior rapidez. Continuou esperando...
Mesmo na escuridão telúrica, Herculano desconfiava de que o tempo havia passado um pouco, desde que chegara ao local combinado para a fuga. A aflição tomava conta dele. Queria saber o porquê da demora. Gritou várias vezes o nome do amigo. O som batia e voltava num eco ensurdecedor e medonho. Cansado de esperar, pegou a pequena lanterna e conferiu o relógio. (Sete horas, já?!), espantou-se. Já era tempo de estar em liberdade. Resolveu conferir, por intuição, a face lívida do morto. Surpresa: o corpo que jazia ao seu lado era o de Abílio...

Perversos e pervertidos (RESENHA)

Com Cazuza, o tempo não pára, a elite carioca global se consolida, de vez, como a maior produtora de lixos e porcarias audiovisuais



Não é de hoje que a elite carioca insiste em ditar modas no Brasil (das pornochanchadas à novela Dancing Days, tudo é imitável). Reconheço que, nesse quesito, ela é campeã. As novelas da Globo provam-no. A cada folhetim, novas manias, novos penteados, novos modelos de roupa. Do figurino ao modo de rir, o Brasil se encanta com as caras e as bocas da classe média da cidade maravilhosa (?).
Veja-se Páginas da Vida: o Rio de Janeiro com que todo mundo sonha. Ocorre que aquele Leblon é tão verdadeiro quanto a inocência cretina do presidente Lula diante da corrupção instaurada pelo PT em Brasília. Manoel Carlos, o autor da novela, morador antigo do bairro, abrilhanta o que parecia impossível: o caos urbano dos morros, com suas mortes, suas perversidades (aos olhos do turista, o Rio é uma Paris do século XXI).
Fiquemos com essa pequena introdução, para começarmos a discutir o filme Cazuza, o tempo não pára (Brasil, 2004), que será exibido na próxima quarta-feira pela Globo. A primeira pergunta que me faço: por que o Ministério da Cultura (cujo ministro é tão importante quanto as areias movediças do pantanal sul-mato-grossense) consegue financiar tantas desgraças culturais, sem se dar conta (ou fingir que não dá) do crime que aplica à nação brasileira? Talvez eu esteja enganado: o golpe do financiamento público já venha de outras épocas...
A Globo Filmes, uma das produtoras, depois que entrou no mercado fílmico, angariou toda a máfia possível na aprovação de projetos chulos como o filme em questão. Cazuza, o compositor, não tem mérito algum para ganhar película em seu nome. Ele foi, na minha opinião, quando muito, um letristazinho de quinta categoria. Em suma: um burguezinho carioca sem rumo, que se alimentava dos pais com sonhos e desilusões de quem tem muito dinheiro para gastar à toa.
O filme é, ele todo, medíocre. A história é de uma futilidade desmedida. E aí me faço a segunda pergunta: de que vale a vidinha gay de Cazuza, erigida como exemplo de moral e heroísmo? A sociedade brasileira não tem a obrigação de financiar a trajetória de um veadinho drogado, só porque os baluartes da Globo acreditam que Cazuza foi o Fernando Pessoa da década de 80 (é bom que se diga que o movimento gay cresce, espantosamente, na imprensa brasileira: vide o Diário da Manhã, em Goiânia).
Os diretores Sandra Werneck e Walter Carvalho (aquela, insossa; este, sem açúcar e sem afeto!), a cara e a coroa da boçalidade carioca (se eles têm ou não têm mérito, recuso-me a evidenciá-lo), conseguiram o que todo diretor não gostaria de conseguir: fazer um filme ridículo, com cenas descabidas, e, ainda sim, ganhar destaque na imprensa pela glória que não tiveram.
Daniel de Oliveira (o gay), digo, o Cazuza, incorporou de tal maneira os tiques cazuzianos (permitam-me a tirada!), que não hesito em dizer que, depois das filmagens, ele deve ter queimado a rosca por aí. Era real demais para ser fingimento...
Marieta Severo, a Lucinha Araújo (mãe de Cazuza), era em gênero, número e caso a Nenê, de A Grande Família: os mesmos gestos, os mesmos trejeitos. Reginaldo Faria, o João Araújo (pai de Cazuza), era sem pôr e sem tirar o Doutor Fontes, de Sinhá Moça: o mesmo jeito de olhar, de falar, de gesticular. Em suma: fizeram jus à porcaria que é Cazuza, o tempo não pára.
Pode ser que eu tenha exagerado um pouco. Mas o meu dinheiro não é capim, tampouco bosta de fossa, para que o Ministério da Cultura financie as merdas intelectuais da elite carioca, desvirtuando, de forma desproporcional, o caminho inteligente que eleve a moral da juventude e enalteça pessoas sérias, que sirvam de exemplo aos nossos filhos, à nossa família, à nossa geração.
Cazuza não foi e nem será exemplo de nada. Aliás: ele deve ser o exemplo a não ser seguido pela juventude que o reverencia, vítima que é da imagem distorcida que a Globo cria na cabeça das pessoas por meio da mídia. Senhor ministro Gilberto Gil, faça-me o favor! Rede Globo, vá para o Diabo que a carregue!

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Um brinde à Rotam (ARTIGO)

No país dos direitos humanos de criminosos, grupo especializado da PM goiana faz valer o estrito cumprimento do dever legal

Para a equipe do tenente Arantes
Em países sérios, como os Estados Unidos, bandido não tem tratamento especial, cumpre pena em regime fechado (em alguns Estados, confina-se até a morte); dependendo da gravidade do delito, pode parar numa cadeira elétrica ou receber substância letal na veia. Aos criminosos, a lei; à sociedade, a justiça.
Em países esculhambados, como o Brasil, bandido tem tratamento especial, cumpre pena vip, com direito a celular, TV, DVD, frigobar, sexo à vontade (com homens e mulheres), defensores não constitucionais (especificamente, os ongueiros dos direitos humanos de criminosos), drogas das Farc e, caso haja alguma ameaça legal aos privilégios dele, intenta-se contra a ordem pública, se coagem cidadãos honestos, instaura-se a atmosfera do terror, a exemplo do que ocorreu em São Paulo, com o PCC, e em Brasília, com o MLST (duas facções a serviço do crime organizado). Aos bandidos, tudo; à sociedade, o rigor da lei.
A disparidade jurídica entre países sérios e países esculhambados não se resume apenas a esse aspecto. Todo grande jurista, em tese, deveria pensar o fato; depois, a lei. Hoje, no Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, evidencia-se a lei; omite-se o fato. A assassina confessa dos pais, Suzane Richthofen, que o diga: beneficiou-se de prisão domiciliar, mesmo não sendo gestante, inválida ou estar com algum problema de saúde. Vá entender cabeça de juiz...
Dois textos da edição 1958 de Veja revelam lados opostos desse raciocínio: a escritora Lya Luft (minha eterna tradutora de Thomas Mann ), em Vamos fazer de conta, e o neo-esquerdista André Petry, em Eles não passarão. O dela: lírico, sensato, humano, demasiadamente humano; o dele: infestado de chavão, equivocadíssimo, uma verdadeira ode ao bandido.
Lya Luft, numa bela homenagem à cidade de Goiânia, escreve: “Faço de conta, aliás, que meu país é, todo ele, feito uma cidade que conheci recentemente: Goiânia, que me surpreendeu como poucas coisas nos últimos anos. Bonita, limpa, organizada, alamedas de palmeiras e vários parques, com a gente mais acolhedora que já vi. Não percebi ainda nela o medo estampado no rosto dos moradores de outras cidades grandes”.
Grande parte do que ela constatou em Goiânia se deve ao trabalho eficiente da Rotam (Ronda Ostensiva Tática Metropolitana). Se as pessoas ainda não estão em pânico, como em outras cidades brasileiras (Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador e Distrito Federal), é porque bandido tem medo do rotanzeiro. Os homens de preto (assim são conhecidos os militares) têm olhar de tigre, de justiça. Diferentemente de outras corporações, a Rotam impõe respeito, porque não se intimida diante de malfeitores, de latrocidas, de estupradores. Ao contrário, amedronta-os!
Prossigamos com a lucidez de Lya Luft: “A bandidagem nos comanda, os direitos humanos não se preocupam com meu amigo assaltado, minha amiga ameaçada, meu vizinho seqüestrado. Preocupam-se com os seqüestradores, os assaltantes, os assassinos”. Conclusão, a propósito, bem diferente da a que André Petry chegou.
Veja o argumento dele (chavão até mandar parar): “Os covardes que ameaçam e insultam anonimamente os membros da Comissão de Direitos Humanos de São Paulo precisam entender que o que realmente ajuda a combater a criminalidade não é tratar os criminosos como lixo humano. É dar-lhes a certeza da punição. Não é preciso torturá-los, arrancar-lhes os olhos, deixá-los dormir entre excrementos... Basta puni-los, com justiça e rigor. Só isso”. Note: “covardes” somos nós que prezamos pela Justiça; não os bandidos, que a dizimam, a reduzem a pó.
Mas, ao que ele diz, respondo:
1 - O Estado brasileiro já não serve de base para assuntos ligados aos princípios constitucionais (portanto, acusá-lo de omisso é chover no molhado!): o presidente viola todas as leis da ética, o Congresso Nacional é um nicho de sanguessugas (eles vão além das ambulâncias!), a Justiça é conivente com advogados canalhas, que vivem à custa das “brechas da lei”. Se bem que, em muitos casos, a distância entre advogado e canalha é mera questão de redundância... A invasão ao Congresso Nacional, por criminosos do MLST (na terça passada), é exemplo claro de que o Estado é, todo ele, partidarizado (deixou de ser instituição pública desde janeiro de 2003).
2 – Esse argumento que, de tão vazio e insosso, impregnou nos discursos da maioria dos professores de Direito Penal, segundo o qual a pena não precisa ser “dura”, basta o criminoso ter certeza da punição, é risível. Cometem-se crimes, justamente porque a certeza dos bandidos é a impunidade, é a facilidade com que se violam os direitos humanos do cidadão honesto, do pai de família trabalhador, do negro, do pobre. Esse utópico raciocínio de que deve haver “certeza da punição” é cínico, falacioso, irreal. Nenhum bandido pensa nisso, quando mata alguém, quando estupra alguém, quando seqüestra alguém. A certeza dele é única: haverá advogados, cujo direito constitucional permite a defesa individual de qualquer pessoa; e haverá, ainda, para a alegria do meliante, defensores não oficiais, propagando a lenga-lenga dos direitos humanos: no caso, os ongueiros, muitos jornalistas, inúmeros professores, congressistas de esquerda.
3 – Parece-me que foi o ex-ministro do STF Nélson Jobim que deu a definição mais exata sobre presos no Brasil: desde 1988 (última reforma da Constituição), devido aos resquícios de ditadura, os congressistas foram pressionados a conceber o criminoso não de acordo com o que ele merece, mas como intocável e indivisível preso político. Por isso, arvoram-se vozes contra a tortura ao preso, atentado aos direitos humanos do preso. Gente, as décadas de 60 e 70 já passaram. Paremos com essa besteira de preso político. O preso brasileiro deve ser tratado como preso (não como militante guerrilheiro de esquerda, que queria tomar o poder das mãos dos militares!). Ele deve, portanto, ter o mesmo tratamento oferecido a qualquer preso no mundo (China e Cuba, nesse caso, são exceções: fuzilam qualquer indivíduo que ofereça resistência ao regime totalitário-comunista, indiscriminadamente).
De uma vez por todas: assassino é assassino aqui e em qualquer outro país. Não deve receber regalias do Estado, por pressão de ONGs partidárias, cuja receita se engorda com verbas públicas e com doações internacionais. Sem dúvida alguma, não se deve permitir violação de direitos humanos, principalmente porque quem não os respeita não pertence, mais, à esfera humana. Pelo que sei, bandido não pensa em meus direitos ao me assaltar, ao matar o meu amigo, ao seqüestrar um empresário. Eu é que não devo ser pressionado a respeitar as ações deles, como sugere o artigo de André Petry (a imprensa brasileira tem grande parcela de culpa nisso tudo: vive em lua de mel com transgressores da lei!).
Por isso, os meus cumprimentos ao trabalho da Rotam, não pela fama que lhe atribuem os próprios criminosos, de polícia que mata, mas pela maneira como combate o crime. Prova disso foi a operação desencadeada no último dia 27 na região Sudoeste de Goiânia pela equipe do tenente Arantes. Com um dos melhores serviços de inteligência do País, a Rotam desbaratou uma quadrilha de assaltantes à residência, que havia acumulado fortuna de 300 mil reais, à custa do trabalho honesto de muitas famílias (e ai daquele que ousasse triscar a mão na cara de um dos assaltantes: manifestações de apoio ao banditismo ecoariam de todos os lados!).
Particularmente, confio muito mais no serviço de inteligência da Rotam do que no da polícia civil. Primeiro: os rotanzeiros não brincam de mocinho e bandido: fazem prevalecer o princípio constitucional do estrito cumprimento do dever legal. Bandido, se ousar ir para o confronto, sairá, na melhor das hipóteses, direto para o Hugo (Hospital de Urgência de Goiânia). Bandido tem de aprender que o Bem vence o Mal. Do lado do Mal, pelo menos em confrontos com a Rotam, as estatísticas de baixa não são nada animadoras para os fora da lei.
Segundo: onde a lei impera, a polícia é forte (o Rio de Janeiro é o melhor exemplo a não ser seguido: tome-se o caso do guitarrista Rodrigo Silva Netto, do grupo de rock Detonautas: rico, famoso e, nem por isso, imune à violência generalizada e assustadoramente cruel: foi detonado! A brutalidade dos bandidos não é seletiva: atinge-nos em qualquer camada social!).
Lógico, ressalvas há (em Goiás, inclusive): o salário do policial militar é ridículo. Houve pequenos aumentos nesses últimos anos, mas nada que justifique o não-reconhecimento da atividade policial decente (nesse caso, fica difícil não associar salário baixo à corrupção policial).Sei, também, que há muitos criminosos dentro das corporações militares. Devem ser tratados como qualquer criminoso. Sem regalia. O fato é que, no caso da Rotam, se houver corrupção (todo agente público está exposto a isso), é muito pequena em relação ao que se assiste em outras corporações, como o Batalhão de Trânsito, cuja lista de espera para a entrada no quadro de profissionais é quilométrica, segundo alguns policiais que consultei aleatoriamente pela cidade. Será por que, hein!
Lya Luft é que está certa: Goiânia deve ser vista lá fora, por quem a conhece, e aqui dentro, por quem a vive, como a cidade que ainda não permite o medo na cara das pessoas. Para continuar assim, o próximo governador deve priorizar, como nunca, o combate ao crime, por meio de instituições legais, aparelhar tecnologicamente o serviço de inteligência e reconhecer o trabalho sério desenvolvido pela Rotam. E olhe que os rotanzeiros não ganham nada a mais pelo que fazem. O salário deles é idêntico ao das simpáticas guardas que ajudam as pessoas a atravessarem a faixa de pedestre na Avenida Araguaia com a Avenida Paranaíba, no centro da cidade (trabalho louvável, diga-se a propósito!).
Todo mundo sabe que segurança pública deve ser estruturada dentro dos padrões sociais de cada comunidade e ter à frente um estrategista (de preferência, um secretário que não se limite à paz aterradora do gabinete burocrático). Em Goiás, felizmente, bandido ainda tem medo de polícia (se for a Rotam, então, nem se fala!).
Por isso, nada mais justo do que o meu brinde à Rotam, pelo trabalho que desenvolve, competentemente, em Goiânia Que o estrito cumprimento do dever legal proteja os cidadãos honestos! Evoé, Lya Luft! Evoé, Rotam!
P.S.: O assassinato do comerciante André Moisés Felipe Silva, na segunda-feira, 5, no Jardim Planalto, não deve manchar esta homenagem que faço à Rotam. Caríssimo tenente Arantes, tome providências urgentemente! Que a impunidade naquela região não me faça reescrever este artigo para o próximo domingo!

O papel do revisor de jornal (ARTIGO)


“Assaltaram a gramática / Assassinaram a lógica / Meteram poesia onde devia e não devia...” (Paralamas do Sucesso)


Nas Redações de jornal, existem dois tipos de revisor: o editor (ou manda-chuva) e o caçador de “erros” gramaticais (ou pau-mandado). O primeiro pode ser as duas coisas; o segundo, não! (Por gentileza, micreiros de plantão, não mexam na minha sintaxe, tampouco na minha pontuação!).
Explico: o editor cuida, basicamente, do conteúdo; o caçador de “erros”, da forma (parte material da linguagem). Ambos se propõem à qualidade do texto gramática e ideologicamente. Com um pequeno detalhe: quem revisa a parte gramatical impõe a estilística que melhor lhe convier (esquece, por assim dizer, o espírito de ghost-writer). Ao jornal, cabe discutir a padronização do estilo.
A Folha tem o seu manual de redação. Como o Estadão e o Correio Braziliense. A intenção desses jornais é dar cara singular ao veículo, além de orientar novos jornalistas sobre o estilo que deve prevalecer nas Redações (frise-se: em reportagens). Isso é mérito. Não discordo da prática. Aliás, uma inteligente maneira de construir a identidade do jornal.
Agora, vem a tragédia: os jornais carecem, aqui em Goiás, de bons revisores. Mandei, há alguns meses, ao jornal O Popular, críticas sobre (in)construções gramaticais da capa. Por quê? Porque o jornal mantém uma coluna às segundas-feiras sobre “outras do Português”, do pianista metido a gramático Wolney Unes. Ele nem sequer se deu conta da função da coluna dele naquele espaço. O jornal não teve discernimento para descobrir o que uma coluna dessas contribui para a qualidade dos textos.
Na época, recebi como resposta a explicação cretina dos não especialistas (não uso hífen aí, micreiros!). Wolney Unes me mandou um emeio, segundo o qual O Popular aboliu a figura do revisor, porque acredita no potencial de seus jornalistas. Que piada de mau-gosto! A formação que esse pessoal recebe na faculdade é péssima (por culpa exclusiva deles!).
Dei aula na Faculdade de Comunicação da UFG entre 2002 e 2004 de Expressão Oral e Escrita. Sinceramente, raros (raríssimos, para ser sincero!) foram os alunos que fugiram do trivial. O restante, como não podia ser diferente, limitava-se ao feijão com arroz (deixar por conta dessa gente o rigor da redação é covardia!).
As faculdades de Letras (como as da UFG e da UnB) também têm parcelas fortíssimas de culpa. Formam professores de Português que abominam os estudos sobre gramática (o grave é que muitos deles se propõem a revisar jornais depois de formados). Fazem isso não por opção, mas por ignorância. Passam quatro anos das suas vidas estudando recortes de livros de Lingüística, depois saem cuspindo por aí o que nem os próprios professores deles sabem.
Duvido de que os alunos do 4º de Letras da UFG e da UnB (e de todas as outras faculdades públicas ou privadas) leram, por completo, Mattoso Camara, Francisco da Silva Borba, Antenor Nascentes, Rocha Lima, Evanildo Bechara e o mestre-maior Said Ali (filólogos indispensáveis aos estudos gramaticais). E olhe que não estou sendo maldoso (falo de autores brasileiros). Saussure, então, nem pensar. Lêem “para compreender Saussurre” (é cômodo, confortável, prático). Nunca tiveram a curiosidade de ler as páginas do Curso de Lingüística Geral, por dois motivos: preguiça e incompetência (o termo é usado como o oposto da competência chomyskiana, quase antônimo de estímulo).
Agora, tenho plena certeza de que esses alunos profetizam Preconceito Lingüístico, de Marcos Bagno, como o Alcorão da linguagem moderna, inovadora, marxista. Afora uma ou outra sacada de Bagno, esse livro é tão equivocado como o monstrengo Não erre mais!, de Luiz Antônio Sacconi. A propósito, Bagno e Sacconi são dois extremos do mesmo equívoco: este, pelo excesso de gramatiquice; aquele, pela libertinagem lingüística.
Na edição 1615 do Opção (www.jornalopcao.com.br), o Zé Maria (eta intimidade!) publicou um texto meu, intitulado Um brinde à Rotam. Sinceramente, depois de editado, ficou irreconhecível. Houve intervenção dos revisores de toda a natureza: lingüística, gramatical e o mais grave: estilística. Impuseram o estilo que não é meu, posicionamentos sobre regras de gramática de que não sou partidário. Enfim, burlaram a regra fundamental do revisor de verdade: ter conhecimento de causa, quando o assunto é a palavra.
Mas nem tudo está perdido. Existe uma boa maneira de se tornar revisor: ler mais, esquecer balelas dos cursos de Letras, idéias mirabolantes dos cursos de Comunicação, discernir o que é Gramática do que é Estilística. Como sou bonzinho, cito um livrinho importantíssimo para quem se limita a ler apenas A língua de Eulália, como se fosse o Dom Casmurro dos tempos modernos: Estilística da Língua Portuguesa, do professor Rodrigues Lapa (lição precípua de gramática e estilística).
Depois da leitura desse livro, o candidato a revisor vai aprender que o ponto-e-vírgula tem mais funções do que supõe a nossa péssima filosofia. E que a retirada dele (como o “E” do início desta frase) prejudica a intenção do texto. Em muitos casos, o significante é o próprio significado (leiam Saussure, meus filhos!).
Das mexidas que houve em meu texto, a que mais me deixou indignado foi a concordância da passiva sintética. Por exemplo: vendem-se casas, compram-se imóveis. Nem mesmo outro guru cultuado nas faculdades de Letras, Sírio Possenti, abriria mão desse tipo de concordância (consultem a bíblia dele, adotada pelos professores, por exemplo, do Cepae da UFG: Por que (não) ensinar gramática na escola?). Somente Marcos Bagno levanta o assunto e assume as (ir)responsabilidades de escrever “vende-se casas”, “aluga-se imóveis” (está lá no Preconceito Lingüístico, manual esquerdóide dos deslumbrados).
Por tudo isso, deixo claro ao leitor que deparou com o meu texto sobre a Rotam, que não escrevi “comete-se crimes”, “se coage cidadãos”. Foram os micreiros, eles próprios (e aqui vale a ressalva: em artigo jornalístico, a liberdade estilística é considerada consenso; na Folha, permite-se, até, a mesóclise, desde que não seja em textos noticiosos).
Não quero ofender, de maneira alguma, quem quer que seja. Mas dou-me o direito de responder a tudo o que me prejudica publicamente. As revisões (?) que fizeram no meu texto depõem contra mim. Afinal de contas, sou professor de Português. E honro as calças que visto. Há braços!

P.S.: Se quiserem polemizar, contem comigo!
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O MEU CORPO PARECE UMA BOMBA-RELÓGIO

Devo explodir daqui a alguns segundos; ou não! Estou farto do alcoolismo. Não consigo raciocinar direito. Levanto pensando em beber. Deito com excesso etílico no sangue. Acordo triste. Mesmo assim, procuro sempre o caminho tortuoso da cachaça. Imagino se, em vez de sair à procura desesperada por embriaguez, pusesse-me a desmascarar algumas coisas que me rodeiam, ficaria mais feliz. Farto. Estou farto de tudo. Por isso, escrevo aleatoriamente. Não quero pensar nas conseqüências do que sai aqui. Tinha de escrever hoje. Encontrei este espaço. E pronto. Tasquei o texto.

CURSO DE REVISOR DE TEXTOS

Meus queridos amigos, montei um curso especial para quem se interessa por correção de textos. A primeira turma será em Taguatinga, DF. Depois, virei para Goiânia. Aviso o lugar, a data e o preço. Grande abraço.

ESPEREM, QUE LÁ VEM BOMBA!

Tive alguns problemas para publicar textos neste espaço. Mas, comunico-lhes que, de agora em diante, teremos bons e maus momentos de reflexão aqui. Aguardem. Grande abraço.

A CRIMINALIZAÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO

O Estado brasileiro já deixou de ser público faz uns anos. Hoje, e isso é gravíssimo, o Estado brasileiro é partidarizado. Pertence aos porões do PT. Articula-se de acordo com as orientações do Foro de São Paulo. É orientado por minorias que induzem pessoas inocentes a erros de existência...