sexta-feira, março 16, 2007

Carta à diretora da escola em que minha afilhada estuda

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À ILMA. DIRETORA DA ESCOLA EVANGÉLICA GÊNESIS

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Goiânia, 16 de março de 2007.

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Ilustríssima Diretora:

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É com muito pesar que eu, Cleiton dos Santos Pereira, tio da aluna Brenda Mariana, venho expor-lhe o que se segue:

1 – Desde quando criança com 8 anos (é o caso da Brenda) estuda ditongo, tritongo, hiato, substantivos coletivos, sem antes dominar, o mínimo possível, de escrita e de leitura?! Hoje, infelizmente, tive o desprazer de auxiliá-la nessa tarefa tediosa, massacrante e covarde (o caderno de exercícios dela é prova cabal do digo).
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2 – A minha sobrinha apresentou-me um livro, cujo título é Português – Linguagens, da 2ª série, 3º ano, dos autores William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães, que, segundo ela e a minha mãe, a escola adota para o ano letivo. Veja que absurdo: o exercício “para casa” aborda temas que não constam do referido livro. Espere aí: o aluno é obrigado a comprar o livro no início do ano para não o usar?! Ou a Escola Evangélica Gênesis trabalha com o sobrenatural: o aluno adota um livro; o professor, outro?!
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3 – Qual a formação do professor de Português de sua escola?! Tem graduação?! Não tem?! Se não tem, como acreditar na qualidade das aulas?! Para chegar a esse descalabro didático, não acredito em que o professor da Brenda tenha noções de concepção de língua, de linguagem e de ensino de Português.
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4 – A Brenda não apresenta, em nenhum momento, sinais de aprendizagem. Não quero ser leviano, pois muitos alunos sentem mais dificuldades do que outros. Mas, no caso dela, é a maneira como estão sendo conduzidas as aulas. A Escola Evangélica Gênesis precisa, urgentemente, rever o seu projeto pedagógico. Senão, vocês vão matar muitas mentes brilhantes, de crianças que se tornam vítimas de um ensino pernicioso, equivocado e, principalmente, surrealista de Português.
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5 – Sugiro que a Ilustríssima Diretora chame, ao particular, os pais da Brenda, a própria Brenda e o professor/a de Português. A minha ignorância não me permite opinar sobre as outras matérias. Mas, se seguirem a trilha de Língua Portuguesa, está decretado o fim da minha querida afilhada.
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Atenciosamente:


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Cleiton dos Santos Pereira
Mestre em Letras pela UFG
Professor do programa de pós-graduação da Universidade Salgado de Oliveira.

quarta-feira, março 07, 2007

Aos meus pares

De Augusto dos Anjos para todos os amantes dos momentos etílicos. Brindemos a nós próprios.

O Ébrio
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Bebi! Mas sei por que bebi!... Buscava
Em verdes nuanças de miragens, ver
Se nesta ânsia suprema de beber,
Achava a Glória que ninguém achava!
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E todo o dia então eu me embriagava
- Novo Sileno, - em busca de ascender
A essa Babel fictícia do Prazer
Que procuravam e que eu procurava.
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Trás de mim, na atra estrada que trilhei,
Quantos também, quantos também deixei,
Mas eu não contarei nunca a ninguém.
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A ninguém nunca eu contarei a história
Dos que, como eu, foram buscar a Glória
E que, como eu, irão morrer também.

https://youtu.be/dohtWcFOkMw

Um pitadinha de alossemia (da comunidade Revisores)

Em Fonética, a variação de um mesmo fonema chama-se "alofone". Em Morfologia, a variação de um mesmo morfema chama-se "alomorfe". Em Semântica, eu digo isso na minha tese de doutorado, a variação de um mesmo sema chama-se alossema.
No caso das preposições, aí é que tudo varia mesmo. Vejam estes exemplos:
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a) Estou à margem do rio.
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b) Estamos na margem do rio.
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c) Vou à busca de investimentos.
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d) Vou em busca de investimentos.
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As preposições "a" e "em" são as que mais variam na Língua Portuguesa. Por isso, nada mais natural do que "a domicílio" e "em domicílio". Essas duas preposições são irmãs siamesas. Não se espantem com "a cores" e "em cores". O significado é o mesmo. Claro que muita gente diz que o verbo "entregar" rege a preposição "em". Quem entrega, entrega "em algum lugar" (viram a vírgula entre "entrega/entrega"? Há abonos para ela; não fiquem zangados comigo).
Uma coisa que defendo na minha tese: não existe exclusividade de regência. O verbo "entregar" rege qualquer preposição que, com ele, contraia função. Se não (separado mesmo!), vejamos:
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a) Entreguei os pontos.
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b) Entreguei-me de corpo e alma neste amor
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c) Entregar na porta.
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d) Entregaram-se com voracidade. Fizeram sexo a noite inteira.
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Então, meus caros: a variação de um mesmo sema não altera o produto final. Ou seja: o sentido. Bem-vinda a alossemia. Bem: dito isso, "Composto de" e "Composto por" seguem o mesmo caminho: variação de um mesmo sema.
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Obs.: Se houver necessidade de discussão, considerem-me disposto a ela. Valeu! Há braços.
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