quarta-feira, agosto 09, 2006

Da janela (roteiro literário)


CENA 1 – PAREDE DE UMA CASA ANTIGA – EXT/DIA


Música incidental: Da janela

A CAM percorre a parede de uma casa antiga. Os cartões de apresentação surgem, indicando nomes de atores, diretor etc.


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CENA 2 – JANELA DA CASA ANTIGA – EXT/DIA


Ao término dos cartões de apresentação, a CAM descobre Efigênia debruçada sobre a janela.


NARRADOR (off) – Da janela, os olhos úmidos. Triste, o viés misterioso do olhar. Efigênia chora (inserto: close nos olhos dela). Um sonho esfacela-se. O amado partiu (inserto: close nos pés de um homem em movimento). Cruel, a sina. Magoada, contempla o infinito desejo de morrer da menina do retrato.

EFIGÊNIA (Em monólogo interior) – Quem será?

NARRADOR (off) – Franze a testa, limpa as lágrimas e volta a observar a vida depois da janela.


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CENA 3 – INTERIOR DE UMA CASA – INT/DIA

CAM revela o interior da sala, descobrindo a impassibilidade da mobília (à la Augusto dos Anjos, em “Poema Negro”).


NARRADOR (off)– Dois mundos, o dela: a solidão nefasta da interioridade da casa...

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CENA 4 – PONTO DE VISTA DE ALGUÉM DA JANELA – EXT/DIA


CAM revela a exterioridade da rua, como se alguém estivesse observando, da janela, o lado de fora.

NARRADOR (off) – A sedutora imagem da exterioridade da rua.

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CENA 5 – JANELA DE CASA ANTIGA – EXT/DIA


NARRADOR (off)– Transpor a abertura na parede, ir ao encontro do Outro, tornar-se um Ser à procura de respostas: Efigênia, quando adormece, ascende a isso. Protela o ímpeto todas as vezes.

EFIGÊNIA (Em monólogo interior) – Ainda provarei que sou feliz...

NARRADOR (off) – Os olhos não fogem do horizonte longínquo da cidade. Pequena cidade (inserto: take da visão geral da cidade). Efigênia gosta de perfume. Reconhece as pessoas pelo aroma (em muitos casos, pelo odor). Dia desses, viu um homem cuja fragrância se parecia com a descoberta da felicidade (inserto: close no rosto do homem). Temeu o perfume: quiçá armadilha olfativa. O homem, ao contrário, podia não lhe dar filhos. Ela planejava uma família feliz. Tradicionalmente feliz. Instituição social, mesmo! (inserto: tomada de uma família reunida no horário ”sagrado” da refeição: o pai, à cabeceira; a mãe e a filha, do lado esquerdo; os dois filhos, do lado direito). Sua filha chamar-se-ia Beatriz (por enquanto, o pai fugiu; quem sabe voltará?). Ela gosta desse nome.

EFIGÊNIA (Em monólogo interior) - Be actress!

NARRADOR (off) – Recorda as aulas de Inglês.

NARRADOR (off) – Teatro: um dia almejou atuar nesse espaço dramático (inserto: take da entrada de um teatro). Desistiu antes da primeira peça, cujo enredo (fatidicamente assim): de família burguesa, um rapaz abre, de toda a riqueza que possuía, mão: parte em prol do amor de Carolina. Ela, antipoeticamente, morre no parto. Ele, morto existencialmente. O filho, na noumenalidade do NÃO SER (inserto: seguem-se a essa descrição a mãe, coberta por um lençol azul, em cuja região da vagina há manchas de sangue, e o pai que, desesperado, chora ininterruptamente, com a criança morta no colo). A moça da janela desistiu do papel principal, pois temia a Morte (inserto: Efigênia, no centro do palco de um teatro, rasga folhas de um texto dramático). Na ficção, há motivos para que atores vivenciem a experiência do palco no dia-a-dia (inserto: em redemoinho, surge um jornal cuja manchete principal é o relato sobre a morte da atriz Daniela Perez). Por isso, desligou-se do elenco o mais rápido possível. Ser atriz era o primeiro sonho de Efigênia. Os outros, mistério (inserto: close em um ursinho de pelúcia sobre uma cama). Quis ela que o destino a pusesse no caminho certo. Mas o amado partiu: levando, com ele, o amor dela; deixando, com ela, a ausência dele. Novamente a foto: a menina permanecia anônima àqueles olhos perscrutadores.

EFIGÊNIA (Em monólogo interior)– De quem seria filha?

NARRADOR (off) – A mancha amarela denunciava a antigüidade do retrato. Havia resquícios de palavras femininas no verso da foto(grafia). Dedicatória à mãe da menina (inserto: close no verso da foto). Efigênia olha novamente o horizonte (inserto: ponto de vista dela) e resolve tomar uma decisão: quer desbravar o enigma da rua: essa eterna morada dos loucos, dos bêbados, dos leprosos, das meretrizes, dos amantes, dos alcoólatras, das donzelas, dos fetos em latões de lixo e, principalmente, do proibido... (inserto: a cada fala descritiva do Narrador, close nas figuras referidas).

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CENA 6 – RUA EM FRENTE À JANELA – EXT/DIA


NARRADOR (off) - Salta a janela (inserto: em croma, tendo como fundo a parede da casa, sobre cuja janela Efigênia debruça, vê-se a figura dela de braços abertos, saltando para a rua): a sensação é de orgasmo múltiplo: descobrir o profícuo sabor do lado de fora da vida. Alegra-se. Ri com a foto na mão. Saltita, várias vezes, até alcançar o êxtase da liberdade. Dança feito criança no meio da calçada. Qual bailarina russa...


PONTUAÇÃO MUSICAL (inserto: close na cabina de um caminhão preto)


NARRADOR (off) – Corte: de repente, o trágico. Descuida-se. Sorriso de criança em face de mulher. Dos que trafegam, os olhos esbugalhadamente atônitos (inserto: close nos rostos de alguns figurantes: gari, executiva, pedestres, operário, negro, criança etc, boquiabertos pela cena a que assistem). O objeto aniquila a elipse do sujeito: um caminhão preto sela a existência da moça da janela. E o evento carrega, impunemente, a foto da mão de Efigênia...


A CAM fecha em Efigênia estirada no chão. Vê-se o sangue escorrer da boca e da cabeça dela. Instantes. Música: Parte de ti.

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CENA 7 – CARTÕES DE ENCERRAMENTO - TELA ESCURA

Música: Por ela

Surgem nomes de colaboradores, de figurantes, de possíveis patrocinadores, de pessoas que ajudaram na realização do vídeo etc.
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professorcleiton@yahoo.com.br

Um comentário:

Anônimo disse...

necessario verificar:)