“Assaltaram a gramática / Assassinaram a lógica / Meteram poesia onde devia e não devia...” (Paralamas do Sucesso)
Nas Redações de jornal, existem dois tipos de revisor: o editor (ou manda-chuva) e o caçador de “erros” gramaticais (ou pau-mandado). O primeiro pode ser as duas coisas; o segundo, não! (Por gentileza, micreiros de plantão, não mexam na minha sintaxe, tampouco na minha pontuação!).
Explico: o editor cuida, basicamente, do conteúdo; o caçador de “erros”, da forma (parte material da linguagem). Ambos se propõem à qualidade do texto gramática e ideologicamente. Com um pequeno detalhe: quem revisa a parte gramatical impõe a estilística que melhor lhe convier (esquece, por assim dizer, o espírito de ghost-writer). Ao jornal, cabe discutir a padronização do estilo.
A Folha tem o seu manual de redação. Como o Estadão e o Correio Braziliense. A intenção desses jornais é dar cara singular ao veículo, além de orientar novos jornalistas sobre o estilo que deve prevalecer nas Redações (frise-se: em reportagens). Isso é mérito. Não discordo da prática. Aliás, uma inteligente maneira de construir a identidade do jornal.
Agora, vem a tragédia: os jornais carecem, aqui em Goiás, de bons revisores. Mandei, há alguns meses, ao jornal O Popular, críticas sobre (in)construções gramaticais da capa. Por quê? Porque o jornal mantém uma coluna às segundas-feiras sobre “outras do Português”, do pianista metido a gramático Wolney Unes. Ele nem sequer se deu conta da função da coluna dele naquele espaço. O jornal não teve discernimento para descobrir o que uma coluna dessas contribui para a qualidade dos textos.
Na época, recebi como resposta a explicação cretina dos não especialistas (não uso hífen aí, micreiros!). Wolney Unes me mandou um emeio, segundo o qual O Popular aboliu a figura do revisor, porque acredita no potencial de seus jornalistas. Que piada de mau-gosto! A formação que esse pessoal recebe na faculdade é péssima (por culpa exclusiva deles!).
Dei aula na Faculdade de Comunicação da UFG entre 2002 e 2004 de Expressão Oral e Escrita. Sinceramente, raros (raríssimos, para ser sincero!) foram os alunos que fugiram do trivial. O restante, como não podia ser diferente, limitava-se ao feijão com arroz (deixar por conta dessa gente o rigor da redação é covardia!).
As faculdades de Letras (como as da UFG e da UnB) também têm parcelas fortíssimas de culpa. Formam professores de Português que abominam os estudos sobre gramática (o grave é que muitos deles se propõem a revisar jornais depois de formados). Fazem isso não por opção, mas por ignorância. Passam quatro anos das suas vidas estudando recortes de livros de Lingüística, depois saem cuspindo por aí o que nem os próprios professores deles sabem.
Duvido de que os alunos do 4º de Letras da UFG e da UnB (e de todas as outras faculdades públicas ou privadas) leram, por completo, Mattoso Camara, Francisco da Silva Borba, Antenor Nascentes, Rocha Lima, Evanildo Bechara e o mestre-maior Said Ali (filólogos indispensáveis aos estudos gramaticais). E olhe que não estou sendo maldoso (falo de autores brasileiros). Saussure, então, nem pensar. Lêem “para compreender Saussurre” (é cômodo, confortável, prático). Nunca tiveram a curiosidade de ler as páginas do Curso de Lingüística Geral, por dois motivos: preguiça e incompetência (o termo é usado como o oposto da competência chomyskiana, quase antônimo de estímulo).
Agora, tenho plena certeza de que esses alunos profetizam Preconceito Lingüístico, de Marcos Bagno, como o Alcorão da linguagem moderna, inovadora, marxista. Afora uma ou outra sacada de Bagno, esse livro é tão equivocado como o monstrengo Não erre mais!, de Luiz Antônio Sacconi. A propósito, Bagno e Sacconi são dois extremos do mesmo equívoco: este, pelo excesso de gramatiquice; aquele, pela libertinagem lingüística.
Na edição 1615 do Opção (www.jornalopcao.com.br), o Zé Maria (eta intimidade!) publicou um texto meu, intitulado Um brinde à Rotam. Sinceramente, depois de editado, ficou irreconhecível. Houve intervenção dos revisores de toda a natureza: lingüística, gramatical e o mais grave: estilística. Impuseram o estilo que não é meu, posicionamentos sobre regras de gramática de que não sou partidário. Enfim, burlaram a regra fundamental do revisor de verdade: ter conhecimento de causa, quando o assunto é a palavra.
Mas nem tudo está perdido. Existe uma boa maneira de se tornar revisor: ler mais, esquecer balelas dos cursos de Letras, idéias mirabolantes dos cursos de Comunicação, discernir o que é Gramática do que é Estilística. Como sou bonzinho, cito um livrinho importantíssimo para quem se limita a ler apenas A língua de Eulália, como se fosse o Dom Casmurro dos tempos modernos: Estilística da Língua Portuguesa, do professor Rodrigues Lapa (lição precípua de gramática e estilística).
Depois da leitura desse livro, o candidato a revisor vai aprender que o ponto-e-vírgula tem mais funções do que supõe a nossa péssima filosofia. E que a retirada dele (como o “E” do início desta frase) prejudica a intenção do texto. Em muitos casos, o significante é o próprio significado (leiam Saussure, meus filhos!).
Das mexidas que houve em meu texto, a que mais me deixou indignado foi a concordância da passiva sintética. Por exemplo: vendem-se casas, compram-se imóveis. Nem mesmo outro guru cultuado nas faculdades de Letras, Sírio Possenti, abriria mão desse tipo de concordância (consultem a bíblia dele, adotada pelos professores, por exemplo, do Cepae da UFG: Por que (não) ensinar gramática na escola?). Somente Marcos Bagno levanta o assunto e assume as (ir)responsabilidades de escrever “vende-se casas”, “aluga-se imóveis” (está lá no Preconceito Lingüístico, manual esquerdóide dos deslumbrados).
Por tudo isso, deixo claro ao leitor que deparou com o meu texto sobre a Rotam, que não escrevi “comete-se crimes”, “se coage cidadãos”. Foram os micreiros, eles próprios (e aqui vale a ressalva: em artigo jornalístico, a liberdade estilística é considerada consenso; na Folha, permite-se, até, a mesóclise, desde que não seja em textos noticiosos).
Não quero ofender, de maneira alguma, quem quer que seja. Mas dou-me o direito de responder a tudo o que me prejudica publicamente. As revisões (?) que fizeram no meu texto depõem contra mim. Afinal de contas, sou professor de Português. E honro as calças que visto. Há braços!
P.S.: Se quiserem polemizar, contem comigo!
professorcleiton@yahoo.com.brwww.professorcleiton.blogspot.com
5 comentários:
Cleitoris, muito bom o texto. Alguém, afinal, tem que fazer o trabalho de desentorpecimento mental que grassa no meio acadêmico e jornalístico. Continue honrando as calças e desmascarando a farsa intelectual do nosso meio! Há braços! P.s.: meu blog já recebe comentários. Obrigado pelo toque.
curiosamente, caí por aqui por mero acaso...e adorei ler o seu texto,porque não existe nada mais chato do que a neura em cima da Língua Portuguesa.Na academia, o principal é a preocupação com a sintaxe, gramática,coesão,coerência...e por aí vai..mas a grande maioria dos alunos mal sabe desenvolver um argumento lógico...infelizmente essa é a realidade da maioria dos cursos de Letras.
Concordo que um escritor, um redator tenha que cuidar do texto,mas isso não significa aprisioná-lo na tão desejada Gramática....porque há coisas que a Gramática nem poderia dar conta...graças a Deus inventaram a Análise do Discurso...mas mesmo assim ainda podemos ver inúmeros manuais "faça isso", "faça aquilo"..mas pensar e escrever são coisas que nem sempre conseguem caminhar juntas!
Mas vamos honrar a classe na qual também me incluo: pobres professores de Língua Portuguesa, ensinem seus alunos a pensar, antes de colocar seu pensamento em uma gaveta fechada chamada Gramática,porque só ela não consegue forma sujeitos críticos e autônomos!
Um feliz Natal!
Não entendi diz que leu Said Ali, e ficou bravo quando mexeram na passiva sintética.
babaca!
Quem costuma comentar como ANÔNIMO para criticar os gramáticos é o gay Marcos Bagno, que se considera o dono da verdade. Aliás, os comunas todos são assim. Esse Bagno, no entanto, além de comuna, traz a pecha de ser covarde.
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