sexta-feira, setembro 01, 2006

Como é fácil escrever poemas

Tenho birra enorme com alguns teóricos das Letras, que insistem em dizer que não é função do professor de Português ensinar o aluno a produzir textos literários. Isso é mentira. Transformo qualquer um em literato do dia para a noite (quem duvidar, que me procure!).
Minha experiência como professor de língua materna e como escritor prova-me, a cada dia, o que nem todo mundo sabe: não existe inspiração; existe, sim, transpiração. Transpirando, escrevemos bem. O hábito determina a qualidade do que se escreve.
Vou provar como é fácil escrever poemas. Peguei a escola literária Simbolismo como modelo. Veja o poema que criei a partir dos traços estilísticos simbolistas. O poema se chama Música (na verdade, um soneto de versos livres). Aliás, musicado pelo compositor José Miguel Rodrigues. Ei-lo:
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"Violões cantam o lirismo celestial,
Os anjos soam no ar as canções bíblicas,
Os místicos sons das toadas líricas
Flamejam o flavo, o fluente, o fluvial.
....
Harpas azuis, alvas aliterações,
Eclesiásticas canções do trêmulo clamor,
A virgem-voz evidencia o esplendor
Das sensações, das emoções, das vibrações.
....
Sinfonicamente, a vigília dos olhos teus
Acaricia a claustra alma, os sonhos meus
Viabilizam baladas de seu rútilo coração,
....
Música, aclamem na aurora luz dos meus dias!
Com a incontestável candidez que, dos brilhos, fazia
Entorpecer os semitons e tons da Primogênita Canção!"
....
Observe que não há nenhum momento de spleen. Qualquer pessoa lúcida, que mantenha a prática da escrita diária, consegue produzir algo parecido. Os poetas não são iluminados. Como todo bom escritor, o que eles se limitam a fazer é pensar, organizar, escrever. Feito isso, caro leitor, você também pode produzir textos diversos. Experimente. É isso. Há braços.

5 comentários:

Anônimo disse...

concordo plenamente com sua opinião.
Suely-DF

fernandacinthya disse...

Fico impressionada que todos os lugares do mundo, em quase todas as épocas, em todas as classes sociais, em todas as línguas, mesmo nas mais precárias condições de conhecimento da linguagem escrita, existam poetas.
Especulo em torno da causa que levaria a expressão humana à um tipo incomum de manifestação; a poesia escrita, o texto poético.
O poeta de algum modo exercita-se e/ou excita-se com as palavras: elementos (i)materiais da realidade. As palavras como as outras coisas materiais, são ao mesmo tempo vívidas e prenhes de lembranças (memórias) e imagens.
Sendo assim, acredito ser necessário talvez, ao exercício da arte poética, ascender-se a um estágio de convivência com a(s) coisa(s), com todos os seus objetos potenciais - mesmo os mais ínfimos e diáfanos aspectos da vida humana são objeto de observação, anotação e principalmente de elaboração poética. É trabalho duro, portanto, acredito ser acessível, sem restrições.

fernandacinthya1@hotmail.com
http://wwwcoisaschulas.blogspot.com/

Anônimo disse...

Claro que concordo com você, Mestre da Luz! Dos suores saem "Vidas Secas", "Eu e outras poesias", "A Hora da Estrela"...

Anônimo disse...

Eliot falava de 360 formas de escrever-se poesia (poemas). Maiakóvski assinalava que não existe fórmula para ser poeta, "é poeta justamente quem inventa tais fórmulas". Assim, não há um Paul Valéry, um Eugenio Montale, um João Cabral ou um Michael Turner em qualquer um que se aventure pela palavra escrita. Quando Mallarmé falava que os poemas são feitos de palavras, não falava da poesia. De fato, a inspiração é um demônio da tradição poética, e cabe um milhão de descrições mais ou menos matemáticas e mais ou menos místicas sobre seu quê. Escrever bem, efetivamente, é sempre um exercício de insistência. Por isso qualquer um pode fazer panfletos ou poemas aos quilos minuto após minuto. É por isso que se publica tanto hoje; e também porque há melhor e mais educação, há melhor e mais alimentação e há uma história deste tamanho atada a nossas costas, a que segue uma bimilenar experiência de escrita. Creio, no entanto, que uma ressalva é necessária: uma coisa é um poema, outra coisa é a obra de arte. Que tal você nos descrever suas reflexões sobre obra de arte?

Anônimo disse...

O termo grego póiesis significa "fazer" e a poesia congrega a determinação da realidade e a abertura do imaginário.
O poeta realmente precisa sentir a dificuldade do fazer. Aliás, a palavra técnica, para os gregos, tanto significava "produção" quanto "arte".

...Mas as ressalvas são importantes... Desmistificar o fazer poético é tão perigoso quanto cultivá-lo. A poeticidade exige outras posturas. O poeta trabalha com algo mais cortante, com menos vínculos a uma sintaxe definida.
Mesmo um poema conceitual, como alguns de Camões ou outros dos chamados "metafísicos" ingleses, é trabalhado para criar analogias. Quando elas não ocorrem no ritmo, podem ocorrer sob outros efeitos: aliterações, rimas, assonâncias, paronomásias, anagramas, ou podem acontecer nas transferências semânticas: comparações ou metáforas. Metáforas são transportes, etimologicamente falando. Na sua recepção, como diz Umberto Eco, provocam um curto-circuito neuronal. Elas obrigam a reformular o pensamento, desmobilizando arranjos lingüísticos previsíveis.

Ps. Como já conversamos, ofereço-me como cobaia.