Em frenesi, a narrativa de Bicho de Sete Cabeças traduz a angústia da personagem principal por meio da música
Se conseguiu ou não ser um grande filme, os críticos que se virem (sejam eles especializados ou coisa que os valha!). Só sei que negar a qualidade de Bicho de Sete Cabeças (Brasil, 2000) é dar tiros no escuro.
A diretora Laís Bodanzky conseguiu feito louvável ao misturar narrativa e música, com esta última ditando o ritmo, as seqüências do filme. Direção musical segura de Arnaldo Antunes e André Abujamra, o enredo todo parte das canções para direcionar a trama das personagens. Do início ao fim.
Tem tudo que ver a vida de Neto (Rodrigo Santoro) com os temas musicais. A cada seqüência, um verso diferente, carregado de dramaticidade, cuja descrição lingüística revela os conflitos entre pai e filho, entre amigos, entre ímpetos adolescentes, entre sexo e dor.
A vida em manicômio, não sei se na mesma proporção que se vê no filme, aparece como o caos telúrico profundo. O pai (Othon Bastos) de Neto não o entende; os amigos de Neto não o entendem; a mãe (Cássia Kiss), sim, o entende. Os loucos, no manicômio, não só o entendem, como o reverenciam (o filme é adaptação do livro Canto dos Malditos, de Astregésilo Carrano, personagem real de uma história aterradora).
Assim se constrói Bicho de Sete Cabeças: um filho incompreendido, um pai intolerante, um médico sádico, canastrão e sovina, uma vida usurpada pela incompreensão. Rodrigo Santoro demonstrou muita segurança ao viver o azarado Neto (aliás, o que não faltou foram premiações para o filme no Festival de Brasília; a de melhor ator, entre elas). Azarado, porque não se fazia compreender. Parece muito a incompreensão da personagem Piano, de A enxada (conto antológico do goiano Bernardo Élis): quanto mais se busca resposta para coisas aparentemente simples, mais surgem complicações; e o desfecho, como sempre, não favorável ao protagonista.
Particularmente, não sei se por ser compositor, observo muito a trilha sonora dos filmes. Em Bicho de Sete Cabeças, Arnaldo Antunes mantém a sua performance psicodélica, encaixando cada verso, cada melodia, cada arranjo, aos passos de Neto, em seu árduo caminho de aflição. Nisso, o mérito do filme deve muito à qualidade musical da trilha.
Em toda boa película, há sempre as seqüências mais marcantes. Para mim, as cenas finais de Neto, em provável tentativa de suicídio, não deixam dúvidas quanto à narrativa agonizante que se confunde com a música, revelada diante da direção precisa de Laís Bodanzky. Nesse momento, as lágrimas dificilmente se escondem.
Eu poderia muito bem falar também dos defeitos do filme. Mas não costumo falar mal das coisas de que gosto. Se me emociono, esqueço as partes ruins. Bicho de Sete Cabeças tem problemas também. Mas os omito por pura (ir)responsabilidade. Afinal de contas, todo resenhador é um pouco canalha: enaltece umas coisas; esculhamba outras. Ossos do ofício, meu rei! Há braços.
Se conseguiu ou não ser um grande filme, os críticos que se virem (sejam eles especializados ou coisa que os valha!). Só sei que negar a qualidade de Bicho de Sete Cabeças (Brasil, 2000) é dar tiros no escuro.
A diretora Laís Bodanzky conseguiu feito louvável ao misturar narrativa e música, com esta última ditando o ritmo, as seqüências do filme. Direção musical segura de Arnaldo Antunes e André Abujamra, o enredo todo parte das canções para direcionar a trama das personagens. Do início ao fim.
Tem tudo que ver a vida de Neto (Rodrigo Santoro) com os temas musicais. A cada seqüência, um verso diferente, carregado de dramaticidade, cuja descrição lingüística revela os conflitos entre pai e filho, entre amigos, entre ímpetos adolescentes, entre sexo e dor.
A vida em manicômio, não sei se na mesma proporção que se vê no filme, aparece como o caos telúrico profundo. O pai (Othon Bastos) de Neto não o entende; os amigos de Neto não o entendem; a mãe (Cássia Kiss), sim, o entende. Os loucos, no manicômio, não só o entendem, como o reverenciam (o filme é adaptação do livro Canto dos Malditos, de Astregésilo Carrano, personagem real de uma história aterradora).
Assim se constrói Bicho de Sete Cabeças: um filho incompreendido, um pai intolerante, um médico sádico, canastrão e sovina, uma vida usurpada pela incompreensão. Rodrigo Santoro demonstrou muita segurança ao viver o azarado Neto (aliás, o que não faltou foram premiações para o filme no Festival de Brasília; a de melhor ator, entre elas). Azarado, porque não se fazia compreender. Parece muito a incompreensão da personagem Piano, de A enxada (conto antológico do goiano Bernardo Élis): quanto mais se busca resposta para coisas aparentemente simples, mais surgem complicações; e o desfecho, como sempre, não favorável ao protagonista.
Particularmente, não sei se por ser compositor, observo muito a trilha sonora dos filmes. Em Bicho de Sete Cabeças, Arnaldo Antunes mantém a sua performance psicodélica, encaixando cada verso, cada melodia, cada arranjo, aos passos de Neto, em seu árduo caminho de aflição. Nisso, o mérito do filme deve muito à qualidade musical da trilha.
Em toda boa película, há sempre as seqüências mais marcantes. Para mim, as cenas finais de Neto, em provável tentativa de suicídio, não deixam dúvidas quanto à narrativa agonizante que se confunde com a música, revelada diante da direção precisa de Laís Bodanzky. Nesse momento, as lágrimas dificilmente se escondem.
Eu poderia muito bem falar também dos defeitos do filme. Mas não costumo falar mal das coisas de que gosto. Se me emociono, esqueço as partes ruins. Bicho de Sete Cabeças tem problemas também. Mas os omito por pura (ir)responsabilidade. Afinal de contas, todo resenhador é um pouco canalha: enaltece umas coisas; esculhamba outras. Ossos do ofício, meu rei! Há braços.
Um comentário:
Eu também costumo evitar falar mal daquilo que gosto, Lost in Tranlation, por exemplo, de Sophia Copolla é para mim singular. Os defeitos eu engulo goela abaixo e me delicio com o todo o resto. Bicho de Sete Cabeças é um grande feito, pela música, edição e câmera. Viu como correm livre, diferente da personagem, talvez esse recurso aumente a sensação de clausura. A música é, ali, elemento maior. E quem melhor que Arnaldo Antunes para tornar tudo aquilo maravilhosamente (des)organizado? Tudo foge ao ‘padrão’, odeio essa palavra! Os enquadramentos fogem, o tripé não é ferramenta muito útil, é paralisia pro filme. A música, essa sim é perturbadora das seqüências que se completa na mesa de edição.
Pra mim os melhores momentos são aqueles em que a prisão imposta pela sociedade aos rotulados fora do padrão, revela personagens criados com carinho: mínimas expressões entre alento e perdição. São para esses atores, todos os cortes, músicas, composições e planos. São para seus tremores e incoerências que os elementos técnicos do filme vivem.
Postar um comentário