segunda-feira, janeiro 29, 2007

Desmentindo absurdos gramaticais sobre pleonasmo vicioso

1 - "Ganhar grátis. (Alguém ganha pagando?)"
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Análise: fato corriqueiro na língua, a polissemia perpassa todas as classes de palavra. Não fosse assim, o verbo "dar" não teria aquela infinidade de significados registrados em dicionários, como o velho e indivisível Aurelião. "Ganhar grátis", além do valor pragmático, constitui, sintaticamente, o que se entende por lexia. Consultem o livro Morfossintaxe, de Flávia de Barros Carone, Ática, 1989.
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2 - "Se suicidou (Alguém já suicidou outra pessoa?)"
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Análise: já mencionaram aqui na página sobre o abono que o verbo ganhou não só em gramáticas como em dicionários... Além disso, é extremamente audível a pronúncia...
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3 - "Habitat natural. (Todo habitat é natural; consulte um dicionário.)"
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Análise: Se alguém tiver a crueldade de aprisionar um pássaro em gaiola, saiba que ele não estará, sem dúvida alguma, no "habitat natural". Estará, sim, no "habitat artificial".
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4 - "Prefeitura Municipal. (No Brasil, só existe prefeitura nos municípios.Aliás,ainda bem!)"
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Análise: esta já foi solucionada também: as universidades têm prefeituras. Portanto, "prefeitura municipal" não é, nunca foi e nem será redundância.
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5 - "Conviver junto. (É possível conviver separadamente?)"
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Análise: "Conviver" não tem apenas o sentido de presença física. Se assim o fosse, "conviver em sociedade" seria, no mínimo, grotesco: como seria possível reunir tantas pessoas ao mesmo tempo? "Conviver junto", aí, sim, é conviver em presença física. Convivo junto com os meus filhos, com a minha esposa, com os meus alunos na sala de aula. Infelizmente, convivo com o presidente Lula, somos do mesmo país. Felizmente, não "convivo junto". Granja do Torto, nem no sonho...
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6 - "Sua autobiografia. (Se é autobiografia, já é sua.)"
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Análise: Esta é mole: Vejam esta pergunta: "Esta autobiografia é sua ou de seu irmão?". Ou seja: contextualizem-na, por gentileza!
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7 - "Sorriso nos lábios. (Já viu sorriso no umbigo?)"
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Análise: Por acaso, Machado de Assis faz ou não faz as personagens sorrirem com os olhos? Ou será que os "Olhos de Ressaca", de Capitu, eram, na verdade, a boca? Continuemos...
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8 - "Países do mundo. (E de onde mais podem ser os países?)"
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Análise: Meus queridos: Há ou não diferença entre, por exemplo, "países do mundo" e " países baixos". Ou seja: o adjunto adnominal restringe o núcleo "país". Aqui, nos "país tropical", há muita e muita coisa para ser feita...
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9 - "Criar novos empregos. (Ora, bolas, alguém consegue criar algo velho?)"
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Análise: Novamente, o verbo "criar" é polissêmico. Significa "gerar". E não venham me dizer para substituí-lo. A expressão ganhou valor pragmático. Em Lingüística, chama-se lexia.
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10 - "General do Exército. (Só existem generais no Exército)"
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Análise: Meus caros: existem "General-de-Divisão Combatente", "General-de-Brigada Intendente". Ou seja: os dois postos podem ser preenchidos por alguém que se transforme em "general do Exército". Qual o problema? Nenhum.
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11 - "Brigadeiro da Aeronáutica. (Só existem brigadeiros na Aeronáutica.)"
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Análise: Isolar palavras e expressões para justificar determinado argumento não é muito a minha praia. Sinceramente, se eu disser "O brigadeiro da Aeronáutica argentina", já elimino qualquer possibilidade de isolamento lingüístico para a expressão "brigadeiro da Aeronáutica". Além disse, há o Brigadeiro-do-Ar. Não deixa de ser "brigadeiro da Aeronáutica".
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12 - "Almirante da Marinha. (Só existem almirantes na Marinha.)"
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Análise: Vejam: existem, por exemplo, Almirante-de-Esquadra e Contra-Almirante. Ou seja: quem ocupar um desses cargos é e sempre será almirante da Marinha. Simples..
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13 - "Exultar de alegria. (Você consegue exultar de tristeza?)"
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Análise: É claro que é póssível: ou a Língua Portuguesa aboliu as figuras de linguagem? "Minha alegria é triste". Roberto Carlos já sabia disso antes de muita gente...
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14 - Labaredas de fogo. (De que mais as labaredas poderiam ser? De água?!)
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Análise: Ledo e Ivo engano. Leiam esta afirmação: "As labaredas solares são explosões incríveis que ejetam grandes quantidades de partículas e energia eletromagnética através de um largo espectro de freqüências". Labaredas podem ser explosões. Explosões, apesar do calor, nem sempre são sinônimos de "chama". Fácil, não?!
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15 - Pequenos detalhes. (Existem grandes detalhes?)
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Análise: Existem! Quem tiver conhecimento mínimo de roteiro audiovisual sabe que close é uma coisa; superclose, outra. Um tem pequeno detalhe; outro, detalhe maior. Simples demais...
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16 - "Erário público. (O dicionário ensina que erário é o tesouro público, por isso, erário só basta!)"
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Análise: Por força da expressão (o uso sistemático dela prova isso), temos mais um caso de lexia. Consultem Morfossintaxe, de Flávia de Barros Carone.
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17 - "Despesas com gastos. (Despesas e gastos são sinônimos!)"
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Análise: Não são! "Gasto" se tornou objeto específico: carro, alimento, viagens etc. "Despesa" pode ser cara, barata, ou mais ou menos.
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18 - "Encarar de frente. (Você conhece alguém que encara de costas ou de lado?)"
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Análise: "Encarar de frente" significa "não fugir da realidade", "ter coragem de falar com alguém", "encarar o problema sem ajuda de outrem". O que há de redundante nisso? Nada.
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19 - "Monopólio exclusivo. (Ora, pílulas, se é monopólio, já é total ou exclusivo…)"
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Análise: Mentira! A Ambev mantém monopólio exclusivo no ramo da cervejaria. A mais próxima, Schin, não dispõe dessa exclusividade. Em compensação, na última feira agropecuária de Goiânia (a melhor do Brasil; Barretos que me desculpe!), o monopólio foi exclusivo da Nova Schin.
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20 - "Planos ou projetos para o futuro. (Você conhece alguém que faz planos para o passado? se for o Michael J. Fox no filme “De volta para o Futuro”.)"
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Análise: Conheço um monte: técnicos de futebol, por exemplo. Ao tomarem gol, planejam estratégia para o momento. Ou seja: para o presente.
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21 - "Viúva do falecido. (Até prova em contrário, não pode haver viúva se não houver um falecido)"
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Análise: Se a palavra "falecido" aparece, sempre será como substitutivo. Vejam este exemplo: "Lá vem a viúva do falecido...". É o mesmo se disséssemos: "Lá vem a viúva do dito-cujo", "Lá vem a viúva do famigerado". "Falecido" substitui o nome do morto. Fácil, fácil...
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22 - "Manter o mesmo time. (Pode-se manter outro time? Nem o Felipão consegue!)"

Análise: Santa Ignorância! Se substituo um jogador no intervalo, já não tenho o "mesmo time". Ou seja: não mantive o "mesmo time" no segundo tempo.
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23 - Ao telefone: “fulano não se encontra neste momento” (pq ele se perdeu?)
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Análise: Quando digo: "Meu pai se encontra ocupado lá na loja de calçados". O verbo está no presente; porém, meu pai não está de corpo presente. Quando digo: "Meu pai não se encontra neste momento", quero dizer: não se encontra neste momento aqui. A interpretação é espacial. Nada mais do que isso.
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24 - "outra alternativa"
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Análise: Uma atendente de agência de viagem me diz que há três alternativas de vôos para amanhã:
a) Curitiba
b) Brasília
c) São Paulo
Eu pergunto: não há outra alternativa? Se houver, entrará na opção "d". De onde tiraram a idéia de que "outra alternativa" é redundância? Se eu trocasse por "próxima alternativa", seria a mesma coisa...

15 comentários:

Anônimo disse...

Não tem jeito, confesso que volta e meia falo "vou sair lá fora", "Entra pra dentro"...
É um inferno!!!

lu alessi

Públio Athayde disse...

Meu rigor, que pode parecer hipercorreção, se explica quando fica patente que só reviso texto acadêmico. Alí não cabe metáfora, hipérbole e quase nenhum enfeite literário... Quase nunca! É isso aí, abraço.

Anônimo disse...

Estou contigo, Cleiton. Muito se combate o pleonasmo vicioso e nem sempre ele é tão vicioso assim. O contexto, normalmente, acaba com o ruído.
Mês passado fiz um textinho em meu blogue com uma lista de pleonasmos encontrada na internet (http://cadeorevisor.wordpress.com/2007/04/09/65). Não houve quem encontrasse todos, prova de que em muitas situações eles podem (e devem) ser utilizados normalmente, como reforço.

Grande abraço,

Pablo.

Cleiton Scott disse...

Públio: observe o que disse:

"Alí não cabe metáfora, hipérbole e quase nenhum enfeite literário... Quase nunca! É isso aí, abraço".

Se é "nunca", o "quase" beira a contradição. Ele dá margens para colocarmos "metáfora", "hipérbole" e "enfeite" em textos acadêmicos. Se você ler a minha dissertação de mestrado, ficará horrorizado com a quantidade de metáforas que uso. Bração pr'ocê.

Cleiton Scott disse...

Pablo: isso prova que se tornou moda apontar os tais "pleonasmos viciosos", sem que se dê conta do equívoco da informação. Outro bração pr'ocê.

Deivid Rocha disse...

eu quase nunca cometo esse erro gravíssimo de por pleonasmo em meu vocabulário.ouço muuuuuuuiiiiiito isso,mas, não peguei essa mania e espero que não pegue nunca!!!!

Unknown disse...

olá, não concordei com o fato de prefeitura municipal ser pleonasmo, pois pode-se ter "prefeitura do campus de alguma universidade"

Unknown disse...

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incrível esse seu post sobre pleonasmo,
sou redator em uma agência e os clientes amam me contrariar em bobagens!
referências como a sua me dão garantia de boas discussões! :P
obrigado!

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Anônimo disse...

o ultimo e pleonasmo sim senhor,pois numa prova naum se pode acrescentar "outra alternativa".Mas o resto,eu sempre achava que era pleonasmo,mas agora sei que não.

Anônimo disse...

"BRIGADEIRO" tem outro o de comer..

Jan disse...

Muito interessante! Indicarei na fan page do Revisão para quê?, ok?
http://www.facebook.com/revisaoparaque

Ju disse...

suicidar é verbo pronominal.

logo, suicidou-se, ou se suicidou, ambos estão corretos.

melhor se informar antes de divulgar o erro.

Prof. Cleiton disse...

Ju, você se refere a mim, que derrubei essa tese, ou a quem defende a tese de que "suicidou-se" ou "se suicidou" são pleonasmos?!

Patricia Felix disse...

Ele não divulgou como erro. É o título do que dizem por aí... Está entre aspas.


No texto está dizendo "já mencionaram aqui na página sobre o abono que o verbo ganhou não só em gramáticas como em dicionários... Além disso, é extremamente audível a pronúncia..."

Significa que "se suicidou" está correto.

Patricia Felix disse...

No texto está dizendo para se observar sempre o contexto para verificar se e ou não um pleonasmo.