quarta-feira, janeiro 24, 2007

Sujeitos fenomenológico e sintático

Em AD, nem sempre são tênues as fronteiras entre o que é semântico e o que é gramatical. Por exemplo:
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a) Efigênia, feche a porta!
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b) Efigênia fecha a porta.
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A diferença entre as duas sentenças recai sobre a marcação do vocativo (em a) e do sujeito sintático (em b). A GT não dá conta da classificação de "Efigênia" no plano semântico. O que problematiza a noção de sujeito. Ou seja: se o primeiro critério para identificá-lo é o da concordância (se mudarmos a sentença para: "Efigênia e Vívian, fechem a porta!", perceberemos isso), conforme se vê nesse exemplo, como analisá-lo à luz da AD?! Bem: já entramos numa seara movediça. O sujeito discursivo não necessariamente é o sujeito sintático. Vejamos abaixo:
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- Ontem, Carlos almoçou em casa. Depois disso, não se viu mais o paradeiro dele.
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Claramente, o sujeito sintático é "Carlos", na primeira oração. Na segunda, é a voz discursiva do narrador. Ou seja: ele é sujeito discursivo, mesmo sem presença sintática no enunciado. À luz da AD cleitiana (é minha mesmo!), poderíamos dizer que a força ilocucionária do discurso funciona em duas instâncias:
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a) Instância fenomenológica.
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b) Instância sintática.
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Qual o valor de cada uma? Bem: a primeira preenche o espaço do ente; a segunda, do léxico. Se não, veja-se:
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a) Alguém bateu à porta (o fato foi consumado: houve instâncias fenomenológica e sintática).
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b) Ninguém bateu à porta (o fato não foi consumado; por isso, só houve preenchimento da instância sintática, ou seja, a lexical: "ninguém").
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A par dessas informações, em "Há pessoas", temos dois sujeitos:
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a) O fenomenológico ("pessoas").
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b) O morfossintático (primeira pessoa do presente do indicativo do verbo "haver").
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Pela GT, "pessoas" é apenas objeto direto. Pela minha pesquisa, "pessoas" passa a sujeito fenomenológico, razão por que muita gente boa dizer/escrever: "Haviam pessoas". A concordância, como se vê, guarda relação com o sujeito fenomenológico. Se há pessoas, é porque elas existem fenomenologicamente. Daí, a troca predicaticativa: o verbo haver é, ele próprio, existir. Por isso, a concordância "haviam pessoas". Por hoje é só, pessoal. Fui.
professorcleiton@yahoo.com.br

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