quarta-feira, março 07, 2007

Um pitadinha de alossemia (da comunidade Revisores)

Em Fonética, a variação de um mesmo fonema chama-se "alofone". Em Morfologia, a variação de um mesmo morfema chama-se "alomorfe". Em Semântica, eu digo isso na minha tese de doutorado, a variação de um mesmo sema chama-se alossema.
No caso das preposições, aí é que tudo varia mesmo. Vejam estes exemplos:
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a) Estou à margem do rio.
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b) Estamos na margem do rio.
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c) Vou à busca de investimentos.
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d) Vou em busca de investimentos.
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As preposições "a" e "em" são as que mais variam na Língua Portuguesa. Por isso, nada mais natural do que "a domicílio" e "em domicílio". Essas duas preposições são irmãs siamesas. Não se espantem com "a cores" e "em cores". O significado é o mesmo. Claro que muita gente diz que o verbo "entregar" rege a preposição "em". Quem entrega, entrega "em algum lugar" (viram a vírgula entre "entrega/entrega"? Há abonos para ela; não fiquem zangados comigo).
Uma coisa que defendo na minha tese: não existe exclusividade de regência. O verbo "entregar" rege qualquer preposição que, com ele, contraia função. Se não (separado mesmo!), vejamos:
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a) Entreguei os pontos.
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b) Entreguei-me de corpo e alma neste amor
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c) Entregar na porta.
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d) Entregaram-se com voracidade. Fizeram sexo a noite inteira.
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Então, meus caros: a variação de um mesmo sema não altera o produto final. Ou seja: o sentido. Bem-vinda a alossemia. Bem: dito isso, "Composto de" e "Composto por" seguem o mesmo caminho: variação de um mesmo sema.
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Obs.: Se houver necessidade de discussão, considerem-me disposto a ela. Valeu! Há braços.
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2 comentários:

Anônimo disse...

Quanto a "em domicílio" e "a domicílio" - ambos plenamente aceitável -, eu explico também como casos de "regência à esquerda". Isto é, não é o verbo entregar ou o substantivo entrega que exige "em", mas o substantivo domicílio que exige/aceita "em" ou "a". A mesmo fenômeno ocorre com andar a pé, de joelhos, a cavalo, de ônibus etc. em que o verbo andar não tem nada a ver com a regência...

Cleiton Scott disse...

Ronaldo: regência é algo compartilhado. Há o elemento central que açambarca elementos periféricos. Por isso, o verbo "andar" contrai função com os seus complementos (nos seus exemplos, adverbiais). Quer queira, quer não, há regência, sim, do verbo "andar".